Rete rerum (ou uma tese de doutoramento que deu teatro)

Por Filipa M. Ribeiro*

 

thumbnail_cartaz-camara-eco-zunzum1Se para a faixa etária adolescente já existem vários estudos a documentar o efeito das redes sociais nos petizes, o mesmo não se pode dizer para…cada um de nós.

Podemos sempre escolher a evasiva “é complicado”. Felizmente, houve uma equipa de dramaturgos que não se assustou com a complexidade da questão e pegou num texto realmente denso: uma tese de doutoramento que tratou assuntos tão desafiantes como sistemas de recomendação, redes sociais e emoções.

A tese resultou de 4 anos de investigação de Carlos Figueiredo, e os trabalhos de Fernando Giestas (escrita) e de Jorge Manuel Fraga (direcção) são absolutamente notáveis. Giestas e Fraga tiveram os insights de um sociólogo, o olho de um repórter, a astúcia tecnológica e a arte teatral para conseguir esta paródia indispensável dos nossos hábitos em rede(s). Astuta e provocadora, a peça está impecavelmente pesquisada e escrita, corajosamente representada e é essencial para qualquer pessoa com interesse em media digitais e relações sociais.

Parafraseando Barthes que dizia, “pelas minhas lágrimas conto a minha história?”, podemos questionar se pelas nossas interacções, de gostos e não gostos, de posts e comentários, de subscrições e aplicações, de amigar ou desamigar, contamos a nossa história. Conta o semiólogo que as pessoas do século XVIII choravam no teatro.

Também Agostinho dizia que assim acontecia no teatro dos primeiros séculos da era dita cristã. Se as lágrimas se transformaram num elemento kitsch de um sentimentalismo vazio de TV, é legítimo perguntar, ainda parafraseando Barthes, em que tempo e em que sociedade se gosta ou não gosta? E por que se transformou a sensibilidade (e a intelectualidade) em pieguice partilhada num click? Seria precisa uma horda de sociólogos para responder a isto, mas um dos grandes méritos da peça Câmara de Eco é que consegue fazer-nos rir de nós próprios, de todos nós, quer usemos redes sociais ou não. E castigat ridendo mores, já nos mostrou Gil Vicente.

Este é, pois, um segundo grande mérito desta obra teatral (assim como da tese de doutoramento que lhe deu origem): faz-nos questionar sobre o que fazemos nessa plataforma em que também vivemos: o online. Porque a verdade é esta: todos vivemos em redes sociais, com ou sem facebook. Sabe-se que o comportamento social é adaptativo, que o mimetismo domina as nossas relações e aprendizagens e as redes sociais apenas expõem essa forma de ser, exacerbando-a. Usamo-las, às redes, para o que gostamos, para o que não gostamos, para o que criticamos, elogiamos, defendemos ou repudiamos. Mas raramente as usamos para nos conhecermos. Já nos perguntámos como é que o Facebook consegue prever que duas pessoas se vão casar e quando isso vai acontecer ainda antes dos próprios começarem a namorar?

Em todo o caso, se não quisermos ver Câmara de Eco relegada para um recanto de uma penitência tecnológica, podemos ainda olhar para o pano de fundo estético sobre o qual a peça se destaca como uma insígnia. Ora, nestes confrontos algorítmicos, as nossas escolhas e emoções são mais do que uma manifestação de auto-comiseração ou torturado alheamento: são o vestígio de uma veemência íntima, o sinal de uma demanda por uma glória warholiana e uma sensualíssima fonte de prazer, como se deduz do ‘casal’ Vasco e Inês. Mas a peça tem o mérito de nos levar mais a fundo, de questionar tudo isso.

O terceiro ponto, entre muitos, é que em Câmara de Eco as experiências são virtualmente infindáveis, mas talvez não o seu sentido último: o de fazer ver, sem a compreensão turvada. Naturalmente que a estética do tecnológico, tal como apresentada na peça, ainda causa em nós estranheza, senão mesmo suspeita. Azedam os gostos e os não gostos, azedam os comentários, azeda o mais do mesmo? O nosso olhar sofisticou-se ou embotou?

Barthes nota que no filme “A Marquesa d’O” de Eric Rohmer, as personagens choram e os espectadores riem, o que talvez seja o indício de que qualquer coisa mudou imperceptivelmente. Se, como os anacoretas, escavássemos covis ou buracos na pedra, não seria para aí plantarmos gostos e não gostos. Com Câmara de Eco, o fazer teatro mudou ainda que imperceptivelmente, o teatro científico em Portugal escavou mais fundo. O espectador que vá ver Câmara de Eco ao teatro. Ria, se quiser; questione-se se puder. E surpreenda-se.

DA TESE PARA A BOCA DE CENA 

“As empresas de media digital estão a usar dados de redes sociais para personalizar serviços baseados na Web (por exemplo, busca e recomendação) para servir e envolver a sua audiência de forma mais eficaz e relevante. Porém, esta prática está a diminuir a diversidade de pontos de vista na comunidade de utilizadores Web dada a falta de novidade nos resultados entregues. Assim, o uso actual de dados sociais baseados em relações estabelecidas por efeitos endógenos (ou seja, homofilia) e amizade ou proximidade social (ou seja, laços fortes) criam um efeito de Câmara de Eco Social que aprisiona as pessoas dentro de bolhas sociais de informação. Por consequência, em vez de inovação, há uma redução de qualidade nos serviços prestados por sistemas de recomendação, e assim, um baixo nível de satisfação dos seus utilizadores. A questão que se coloca é, como beneficiar da riqueza dos dados sociais evitando o efeito de Câmara de Eco Social e gerar entrega de novidade?
Os resultados da dissertação, defendida a 14 de dezembro de 2014 na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, mostram que o desempenho dos sistemas de recomendação baseados em redes sociais pode ser melhorado através da entrega de recomendações novas e surpreendentes com base na previsão, e não na aleatoriedade, o que evita o efeito de Câmara de Eco Social. A dissertação chama a atenção para o fato de que os dados sociais podem ser usados para aumentar as distâncias cognitivas entre os utilizadores da Web, o que permite lidar com um conjunto de novas ameaças (por exemplo, ao nível da democracia / tolerância, conformidade, cognição, e da inovação “fluffy”), que têm sido impostas por alguns algoritmos Web.” – Carlos Figueiredo

Referência da tese: EMOTIONS AND RECOMMENDER SYSTEMS: A SOCIAL NETWORK APPROACH, Carlos Figueiredo, 2014.

*Filipa M. Ribeiro – Jornalista de ciência, mestre em comunicação e educação em ciência, doutorada em sociologia da educação, mestranda em história da ciência. Fundadora do Stop Suicídio, ativista pelos direitos humanos e dos animais. E, sobretudo, dedicada incondicionalmente a conhecer.

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