A UTOPIA SERÁ MESMO ECOLÓGICA?

Por Helena Freitas*

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A pressão sobre os recursos naturais da Terra é cada vez maior, em especial sobre a água, os alimentos e o solo, situação que tenderá a agravar-se com a evolução demográfica, cujos cenários apontam para uma duplicação da demanda alimentar em 2050. A necessidade de afectar mais solo ao uso agrícola (que já representa cerca de 40% de toda a superfície do planeta), conflituará com outros usos, em particular com a conservação das áreas protegidas, as florestas tropicais ou as florestas geridas para a produção sustentável de matéria-prima. Torna-se cada vez mais difícil projetar a sustentabilidade do planeta e conciliar a conservação dos recursos naturais com o atual modelo de desenvolvimento; todas as recomendações ou propostas de solução suscitam inevitável controvérsia.

Na última semana, em França, a contestação social começou pela objeção a um aumento de imposto sobre os combustíveis, previsto no quadro da estratégia francesa para responder às alterações climáticas e incentivar a transição ecológica do país. Em Portugal, assistimos há dias a um momento de contestação, de outra magnitude, quando o ministro do ambiente anunciou a intenção de reduzir a produção nacional de bovinos, proposta inscrita no Roteiro Nacional para a Neutralidade Carbónica, e a qual mereceu crítica e recusa imediata por parte da Confederação dos Agricultores de Portugal. A CAP justificou a recusa invocando o impacto na produção de derivados de leite, o aumento das importações nacionais e o impacto sobre o crescimento económico (a análise reporta sempre ao modelo convencional!).

Num recente artigo no jornal Público, Arlindo Oliveira expressava a sua confiança na tecnologia para dar resposta às ameaças ambientais que pendem sobre o planeta, não deixando no entanto de fazer a apologia de melhores práticas de sustentabilidade na política económica. Esta expectativa na ciência e na tecnologia é indispensável, mas insuficiente, e não responde a uma parte importante do mundo que dificilmente terá acesso às soluções encontradas com a celeridade desejável. Num outro artigo recente no mesmo jornal, Filipe Duarte Santos questionava o modelo económico atual e colocava na consciência dos limites e na mudança que estes impõem, a premissa e condição de análise das soluções para os grandes desafios ambientais. Já no Expresso, o economista João Duque, numa análise muito redutora a propósito da contestação dos ambientalistas à exploração de petróleo na costa portuguesa e de minério na Beira Baixa, responsabilizava estes ativistas por tornarem inviáveis as melhores soluções económicas para garantir riqueza e bem-estar das populações. Um conjunto de intervenções que, na sua matiz plural, revelam bem uma percepção crescente dos desafios colocados hoje pelas ameaças ambientais – das alterações climáticas, à perda da diversidade e à gestão e ocupação do solo.

Um recente artigo na revista Science, analisava o futuro das pastagens e da gestão agrícola e florestal face aos três desafios do Antropoceno: as alterações climáticas, a perda da biodiversidade, e o uso insustentável do solo. Neste estudo, as autoras propõem paisagens que funcionam para a natureza e para as pessoas, numa gestão apoiada no respeito pela biodiversidade, ou seja, a silvo-pastorícia, a agricultura diversa, e uma gestão florestal com base no ecossistema, envolvendo os próprios sistemas socioeconómicos, que ajudam a promover a diversidade biológica e a conectividade de habitat, complementando as áreas protegidas e garantindo uma maior resiliência às alterações climáticas. O estudo admite a utilidade dos incentivos voluntários, instrumentos de mercado, regulamentos ambientais, e governança para o apoio à conservação dos territórios, mas coloca na ação comunitária, nos movimentos sociais, e nas associações de cidadãos, empresas, organizações não governamentais e agências, o poder e a força para transformar a forma como gerimos a Terra e protegemos o ambiente.

Utopia, hoje, parece ser continuarmos a acreditar que há desenvolvimento económico e social com os pressupostos do sistema político dominante, rejeitando a matriz e o pensamento ecológico. Perdemos tempo e ele é cada vez mais precioso. É urgente contaminar o léxico da política: o rigor pela eficiência, o conflito pela cooperação, o esforço individual pela partilha, fazendo do bem comum o desígnio colectivo.

*Helena Freitas – Coordenadora do Centro de Ecologia Funcional, uma unidade de investigação no âmbito das Ciências Biológicas e Ambiente.

**Imagem: Utopia/Dystopia por Dylan Glynn.

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