A Humanidade no Antropoceno

Por Orfeu Bertolami*

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La vérité est scandaleuse. Mais, sans ele, il n’y a rien qui vaille. Une vision honnête et näive du monde est déjà un chef-d’oeuvre. En regard de cette exigence, l’originalité pêse peu. Ne vous en préocupez pas. De toute manière, une originalité se dégagera forcément de la somme de vous défautes. Pour ce qui vous concerne, dites simplement la verité; dites tout simplement la vérité, ni plus, ni moins.

Michel Houellebecq in Rest vivant (1997).

 

There are fjords without a single ship, without a single little soul, except for a young seal. No farm, not even an abandoned one, nowhere the works of man. Surf around a black tower of lava; the cone of ash has been washed away. Encircling the fjord, the horizontal mountains, identical slabs of basalt; the slopes down to the sea are green. A world before the creation of man. In many places it is impossible to guess in what era one is.

Max Frisch in Man in the Holocene (1991).

No decorrer das nossas vidas assistimos a uma extraordinária intensificação das actividades humanas. Estas passaram da insipiência, nas nossas infâncias, à ubiquidade e à condição de incontornável na nossa vida adulta. Para fixar ideias mencionemos que o conjunto das actividades humanas se materializa de forma inequívoca em todo o planeta nas mais variadas formas: na manipulação anual de sedimentos e de rochas que supera todos os processos erosivos e fluviais; no controle de três quartos de todas as massas terrestres que não estão cobertas pelo gelo; pela acumulação de gases que causam o efeito estufa que supera os níveis mais altos do último milhão de anos; por uma severa redução nas altas latitudes da camada de ozono; pela acelerada destruição de ecossistemas e pelo consequente declínio da biodiversidade; pela visível alteração do clima; pelo aumento da acidez dos oceanos e a expansão de regiões desprovidas de vida. A acção humana é no presente a força dominante do Sistema Terrestre, i.e., o conjunto de todos o processos e interacções que têm lugar na biosfera, na geosfera, na atmosfera, na hidrosfera, na criosfera e na litosfera superior.

Assim, é neste Éden desfigurado que as teorias político-sociológicas, o novo realismo filosófico, a descodificação do genoma humano, as terapias inumo oncológicas, a detecção experimental do bosão de Higgs e das ondas gravitacionais geradas pela fusão de buracos negros (e estrelas de neutrões), as obras de arte e todos os poemas têm que se articular para constituir o mosaico da condição humana colectiva no Antropoceno, a nova era geológica causada pela acção humana. E é no contexto do desafio de encontrar novos equilíbrios que teremos que forjar a sabedoria necessária para alcançar as respostas que se impõem para erradicar completamente a fome, a miséria material e espiritual, as doenças associadas ao subdesenvolvimento e à falta de cuidados médicos, e as diferenças na distribuição da riqueza e dos recursos. Teremos que reforçar as instituições supranacionais criadas para a resolução e mitigação de conflitos e crises humanitárias para combater os remanescentes da crise financeira de 2008, e a violência e as guerras em todos os contextos. E, faz-se urgente resolver o desfasamento entre a cultura científica e humanística em oposição às visões do mundo baseadas em princípios de irracionalidade ideológica e religiosa, libertando assim as potencialidades transformadoras do conhecimento e a capacidade social de as materializar. Esta dissonância, que é frequentemente expressa através da fórmula, “a ciência e a cultura se desenvolvem muito mais rapidamente que a sociedade”, resulta nas bem conhecidas bolsas de ignorância e subcultura que existem mesmo no seio das sociedades mais desenvolvidas. Consequentemente, no final da segunda década do século XXI, a Humanidade não tem outra alternativa que não desbravar novos caminhos e soluções com base no escrutínio metódico das opções disponíveis.

Acresce a este fluído cenário a já mencionada inquestionável evidência de que a escala da actividade material da Humanidade atingiu níveis que já alteraram significativamente o funcionamento do Sistema Terrestre [1] e as condições de grande estabilidade climatérica dos últimos 12000 anos, o Holoceno. E penso que, muito em breve, teremos que enfrentar os novos desafios que serão criados por tecnologias potencialmente disruptivas tais como a inteligência artificial, a computação quântica, a edição genómica, para além da previsível robotização generalizada de todos os sectores da economia.

Contudo, o combate pela sobrevivência é uma constante na vida de todos os seres humanos. Depois das Grandes Guerras, a Guerra Fria e a hipótese desta se vir a concretizar através de um conflito nuclear generalizado, deixou a Humanidade diante do seu primeiro dilema global. Hoje, enfrentamos o desafio causado pelo sucesso da nossa capacidade de manipular a matéria e a transformar em instrumento de consumo e bem estar. Porém, desde sempre, a tensão utópica [2] tem conduzido a pulsão de transformação da humanidade, mas julgo que os desconcertantes tempos que vivemos exigem construções utópicas guiadas pela ciência e que tenham como meta a resolução de problemas específicos sem que se materializem enquanto utopias ideológicas e holísticas [3]. De facto, a complexidade admite que, entre dois estados, haja várias soluções. A plasticidade da vida torna as soluções únicas simplesmente inadequadas. Transformar o mundo segundo um padrão utópico único é uma tentativa vã (e perigosa, como a História o demonstra) de uniformizar a beleza da multiplicidade. A utopia científica é a colecção das soluções a encontrar para a problemática da humanidade, fundamentalmente sujeita à abrangência do humanismo que iremos colectivamente inventando aquando do desenvolvimento das soluções. É evidente que dado o papel fundamental da actividade humana no estado do Sistema Terrestre, as pressões económicas, frequentemente causadas pela evolução tecnológica, são factores essenciais na discussão de qualquer solução para os problemas que enfrentamos. Neste sentido, a componente científica e tecnológica da actividade humana, frequentemente referida como Tecnosfera, é, conjuntamente com o alinhamento de condições sociopolíticas, imprescindível no desenho de qualquer futuro para Humanidade.

Com base nestas premissas, as únicas certezas são o método científico, os valores humanistas e a urgência dos problemas a solucionar. Naturalmente, o consenso em torno dos problemas que exigem uma resposta é também objecto do imprescindível debate que define colectivamente as utopias a atingir. Sem debate, não há utopias, sem utopias não há Utopia.

Termino com uma brevíssima lista de utopias que eu considero dignos de almejar na próxima década. Cada um destes objectivos tem a ambição e a abrangência que são necessariamente a marca d’água das utopias:

i) Construção de um sistema jurídico que permita internalizar todos os processos que têm lugar no Sistema Terrestre. Esta ordem jurídica permitirá abordar o Sistema Terrestre [4], [5] como se fosse um condomínio, a Casa Comum da Humanidade [6];

ii) Concentrar e intensificar esforços científicos, materiais, financeiros e humanos para levar a cabo o grandioso projecto de edificar a Grande Muralha Verde no norte de África visando conter o avanço do deserto do Saara, evitar as alterações climáticas decorrentes e melhorar as condições de vida das populações dos vinte países Sahelo-Saarianos (Argélia, Burkina Faso, Benim, Chade, Cabo Verde, Djibouti, Egipto, Etiópia, Gambia, Líbia, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Somália, Sudão, e Tunísia) envolvidos nesta grandiosa tarefa. Os benefícios decorrentes desta empresa são mais que evidentes e esta já tem o apoio de inúmeras organizações regionais e internacionais [7];

iii) Numa escala mais local, julgo que seria extremamente emblemático sermos capazes de demonstrar que o desenvolvimento de Portugal é compatível com uma profunda reestruturação da sua floresta e da utilização da terra. Não há razão para que Portugal não seja um exemplo de desenvolvimento sustentável e não adquira as competências científicas e políticas que nos permitirão no futuro liderar iniciativas globais neste sentido.

Porto, Agosto 2018.

Notas:

[1] “A physical framework for the Earth System, the Anthropocene Equation and the
Great Acceleration”, Orfeu Bertolami e Frederico Francisco, in Global and Planetary
Change, 169, pages 66-69, 2018.

[2] A tensão utópica, Orfeu Bertolami, 2015 (http://web.ist.utl.pt/orfeu.bertolami/Utopia_Bertolami.pdf).

[3] Utopia: Utopian and Scientific, Orfeu Bertolami, 2018 (http://web.ist.utl.pt/orfeu.bertolami/Bertolami_Utopia_2018.pdf).

[4] O Condomínio da Terra: das alerações climáticas a uma nova ordem jurídica do Planeta, Paulo Magalhães (Almedina 2007).

[5] The Safe Operating Space Treaty: A new approach to managing our use of the earth System, eds. Paulo Magalhâes, Will Steffen, Klaus Bosselmann, Viriato Soromenho-Marques (Cambridge Scholar Publishing 2016).

[6] Common Home of Humanity: http://www.commonhomeofhumanity.org

[7] “The Great Green Wall for the Sahara and the Sahel Initiative” (2015): https://www.unccd.int/content/great-green-wall-sahara-and-sahel-initiative

*Orfeu Bertolami – é um físico teórico que trabalha em problemas de cosmologia, física das astropartículas, gravitação clássica e quântica, e testes de física fundamental no espaço.

Departamento de Física e Astronomia
Faculdade de Ciências
Universidade do Porto
Email: orfeu.bertolami@fc.up.pt
Homepage: http://web.ist.utl.pt/orfeu.bertolami/homeorfeu.html

** Imagem in Planeta.

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