Sobreviverá a democracia brasileira às eleições de 2018? – Síntese da intervenção de Álvaro Vasconcelos

Brasil

Síntese da intervenção de Álvaro Vasconcelos* no Debate Fórum Demos: Sobreviverá a Democracia Brasileira às eleições de 2018?, realizado no passado dia 15 de outubro na Cooperativa Árvore:

A violência de Bolsonaro!

A democracia brasileira corre um sério risco com a eventual vitória eleitoral do candidato da extrema-direita, antigo capitão do Exército, o medíocre Jair Bolsonaro, cujas declarações neo-fascistas faziam prever um esvaziamento rápido da sua candidatura.

Ele sozinho não seria nada, nem ninguém, mas encontrou apoio num conjunto de forças económicas e sociais interessadas em pôr termo à experiência social-democrata do Brasil, que foi iniciada na presidência de Fernando Henrique Cardoso e continuada pelas presidências do PT.

Impulsionam a sua candidatura os saudosistas do antigo regime militar, os sectores mais reaccionários dos evangélicos e os sectores económicos mais retrógrados.

As lideranças evangélicas conservadoras opõem-se aos avanços significativos que, no capítulo dos Direitos Humanos, nomeadamente dos direitos das minorias, ocorreram no Brasil, e a burguesia retrógrada quer cortes nos impostos e o fim das limitações ecológicas à exploração das riquezas da Amazónia. Encontraram apoio em vastos sectores da população inquieta com o seu futuro, dada a gravidade da recessão brasileira, desde as eleições de 2014, e a incriminação de líderes dos partidos que, desde o fim da ditadura, governaram o Brasil.

O processo de impeachment da Presidente eleita e a prisão de Lula criaram uma situação de extrema radicalização, que levou a uma polarização da sociedade, pôs em causa a convivência e a tolerância, essenciais à vida democrática. Num ambiente de guerra [civil] fria, banalizou-se um discurso violento contra os partidos democráticos, em particular contra o PT, acusados da corrupção generalizada e da impunidade da grande criminalidade que faz mais de 60000 mortos por ano.

Fotografia 2

Como em todos os processos de emergência do fascismo, identificado o inimigo, ele é diabolizado, é-lhe retirada toda a humanidade e são-lhe atribuídos todos os males da sociedade. A violência escondida, numa sociedade injusta e fracturada, como a brasileira é canalizada para um projeto de poder anti-democrático, o que não é novidade, foi assim na Alemanha com a subida ao poder de um outro medíocre como Hitler.

Os discursos de ódio e medo de Bolsonaro, os seus apelos a armar a população e a que a polícia atire a matar, legitimam a violência dos seus apoiantes mais radicais.

Só com cinismo, imoral e soberbo, se pode afirmar que a erupção da violência escondida, com a eleição de Bolsonaro irá civilizar essa mesma violência.

Prova do seu contrário, são os actos graves de violência, a que já assistimos hoje, inspirados pelo discurso de ódio de Bolsonaro contra os seus opositores políticos, as mulheres, os homossexuais e os negros.

Uma das maiores mentiras de Bolsonaro é a promessa de que irá combater a violência com eficácia, armando a população e dando autorização à polícia para atirar a matar. Já hoje um número significativo de brasileiros são assassinados pela polícia e são vítimas de milícias. A eventual vitória de Bolsonaro só irá aumentar a violência e representa um sério risco para a vida de muitos.

Para o derrotar não basta esperar pela aliança de todos os democratas que, dada a atitude de neutralidade assumida por Fernando Henrique Cardoso e Ciro Gomes, parece, não vai acontecer. É necessário que Haddad alerte não só para o retrocesso democrático que a eleição de Bolsonaro representa, mas também para o agravar das desigualdades e da injustiça social, mas sobretudo é necessário que também assuma a bandeira da tolerância e se assuma contra o sectarismo e a violência.

* Álvaro Vasconcelos – Investigador Convidado IRI/USP, São Paulo 2014-2015; coordenador da obra ‘O Brasil nas Ondas do Mundo’.

** Imagem n.º 1: “Manifestação em São Paulo contra a violência cometida pelos apoiantes do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro” | Fonte: EPA/CM

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