Há duas pequenas boas notícias…

Crónica n.º 10 – Observatório das Eleições Brasileiras, 2018
Por Renato Janine Ribeiro*

Haddad

Há duas boas notícias. A primeira é que Bolsonaro não se elegeu no primeiro turno. A segunda é que praticamente todos os eleitores de direita e do autointitulado centro que iriam passar para ele, já passaram. Para Alckmin, do PSDB que era o segundo ou terceiro maior partido do Brasil, ficar abaixo dos 5%, e para Marina, que nas duas últimas eleições poderia ter vencido, e teve 20% dos votos, cair a menos de 1%, é porque muitos de seus simpatizantes voaram para outros nomes, em última análise, para o próprio Bolsonaro. A hemorragia já ocorreu.

Porém, o resto são apenas más, péssimas notícias.

Bolsonaro ficou a um passo da presidência. Pesquisas divulgadas hoje dizem que a maior parte dos eleitores de Alckmin e Marina votará em Haddad, do PT, sucessor nas urnas eletrônicas do presidente Lula, preso e impedido de candidatar (teria vencido as eleições, é quase certo). Mas não bastará. Haddad precisa que todos os eleitores não fascistas lhe dêem seu apoio, o que hoje parece impossível.

Porque se somaram duas divisões, nesta eleição. Primeira, a cisão entre quem apoiou o impeachment de Dilma, em 2016 (que muitos, inclusive eu, chamamos de golpe, porque inverteu completamente as políticas aprovadas pelos eleitores em 2014), e quem foi contra ele. Segunda, a divisão entre quem apoia a extrema-direita, fascista segundo muitos, com uma pauta extremamente contrária aos direitos humanos, e quem defende estes últimos.

O problema é que estas duas divisões são diferentes. Há quem defenda os direitos humanos e se oponha ao golpe: votará em Haddad. Há quem seja contra os direitos e defenda o golpe: vota em Bolsonaro. E há, finalmente, quem apoia os direitos humanos, mas também o impeachment: sua tendência logica pode ser a abstenção ou o voto em branco. Se Haddad conseguir somar apenas seus votos e todos os de Ciro Gomes (o que já não é fácil), não ganha as eleições. Precisa do apoio de gente que repudia o PT, por considera-lo um partido corrupto, mesmo que tenha aversão a Bolsonaro.

Uma saída parcial, mas importante, é o PT procurar tirar votos do próprio Bolsonaro. Parte dos possíveis eleitores de Lula foi votar na extrema-direita. Talvez, na verdade, a única força capaz de conquistar votos bolsonaristas seja o próprio PT. Se Lula estivesse livre, mesmo que inelegível, ele faria isso com gosto e provavelmente com sucesso. Mas, sem ele, não é fácil.

E note-se que a esquerda brasileira, essa tímida centro-esquerda composta do PT e de Ciro Gomes, perdeu de longe nas eleições para o Senado, que renova dois terços este ano, a Câmara de Deputados, os governos e assembleias estaduais. Não sei se lhe serve de consolo o fato de que de modo geral os partidos e candidatos tradicionais saíram perdendo. Foram ladeira abaixo a centro-esquerda, o centro e a direita: tudo o que passa à população a impressão de ser do Establishment. Em vários Estados, venceram – ou se posicionaram bem para o segundo turno na disputa dos governos locais – nomes de novatos e neófitos.

É uma renovação de nomes, embora não de práticas políticas. Na verdade, o mais inquietante é que triunfa o retrocesso nos costumes. A eleição foi em boa parte disputada com base em questões ditas morais. O que os vitoriosos mais repetiam era que não queriam homossexuais, nem liberdade das mulheres, nem aborto, nem cotas nas universidades e empregos para negros e indígenas. Essas pautas foram associadas ao PT e mesmo ao PSDB, partido cujos quadros históricos tiveram um compromisso muito sério com os direitos humanos. Um sinal de que até aí as coisas mudaram é que no mesmo PSDB o ex-prefeito de São Paulo, que disputará o segundo turno para governador do mesmo estado, João Doria, não tem compromisso com os direitos humanos e, desde a semana passada, já estava sacrificando o candidato presidencial de seu partido, ex-governador Alckmin, e indicando sua opção por Bolsonaro. Seria inimaginável que algum líder histórico do PSDB fizesse essa transição. O próprio presidente Fernando Henrique Cardoso já insinuou, semanas atrás, que num segundo turno entre Bolsonaro e Haddad, apoiaria este último, candidato do PT. É possível que FHC, como ele é chamado, coloque algumas dificuldades ou condições para esse apoio, mas seria impossível ele apoiar Bolsonaro, e mesmo uma posição de neutralidade de sua parte é difícil de conceber no caso de alguém que tem uma história com os direitos humanos.

Então, o roteiro para derrotar Bolsonaro passa, primeiro, pelo compromisso do eleitorado não fascista de não apenas não votar nele, mas de votar contra ele. Segundo, pela capacidade do PT de retirar votos do próprio oponente, o que pode ser facilitado – um pouco – pelo fato de que a onda bolsonarista desta semana não chegou até a praia, e assim pode haver um refluxo, uma decepção de gente que o seguiu sem pensar muito. Terceiro, é fundamental deslocar o debate da questão dos costumes, onde Bolsonaro deitou e rolou, como aqui se diz, para a dos programas sociais, nos quais o candidato tem posições muito impopulares. Quarto, é preciso que Haddad, que subiu meteoricamente nas intenções de voto como duplo de Lula, exponha agora cada vez mais sua identidade. O próprio Lula só ganhou as eleições quando deixou de ser quem o partido queria que ele fosse, para ser ele. Lição que o PT deve agora aprender, parando de impor caminhos a quem, em última análise, é o único capaz de derrotar o retrocesso. E finalmente, a responsabilidade não é somente do PT. É de todos os que defendem os direitos humanos, em que pesem as restrições que tenham ao partido de Lula. Teremos três semanas de muito suspense. O thriller Brasil 2018 ainda não terminou.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

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