Bolsonaro: a ameaça do Neofascismo

Por Álvaro Vasconcelos*
candidatos à presidencia debate

No caso de Bolsonaro, os objetivos anti-democráticos e contra o estado de direito não estão escamoteados em nenhum resquício de linguagem liberal, o que é significativo da sua vontade de pôr em prática o que apregoa. E, o que diz define-o como um fascista, ou, se preferirmos, como um neofascista.

Como classificar a ideologia e a ação política de Bolsonaro e dos membros do seu movimento? Prefiro falar de movimento porque, mesmo que Bolsonaro seja um populista que se apresenta como o salvador do Brasil, ele criou um movimento que envolve numerosos militares e grupos para-militares, como pude constatar em Minas Gerais.

As comparações com os partidos da extrema-direita europeus são insuficientes para definir o seu movimento, apesar de alguns traços semelhantes. Como os seus congéneres europeus e latino-americanos, como Orbán, Putin ou Erdogan, procura chegar ao poder pela via eleitoral, para depois ir desconstruindo as liberdades públicas e o estado de direito.

A esta corrente tem-se chamado de “democracia iliberal” ou de “autoritarismo eleitoral”, para acentuar o facto de chegarem ao poder usando os instrumentos da democracia e o facto de ali chegados não porem em causa a realização de eleições, mais ou menos transparentes. O termo terá sido usado pela primeira vez por Viktor Orbán, mas foi em seguida retomado por especialistas como Yascha Mounk em O povo contra a democracia, para explicar as razões do sucesso eleitoral dos populistas nacionalistas na Europa e nos EUA.

Mas as posições políticas de Bolsonaro fazem com que os termos “democracia iliberal” ou “autoritarismo eleitoral” sejam insuficientes para as caracterizar. Nele encontramos muitas das características do que Humberto Eco, numa célebre conferência em Nova York, chamou de Ur-Fascismo. Ali afirmou que seria muito fácil identificar um fascista se ele afirmasse que iria instalar câmaras de gás e não se escondesse, por detrás de declarações de fé nas eleições, mas é preciso chamar a besta pelo nome.

Na Europa e nos Estados Unidos, estamos, regra geral, perante partidos políticos que disputam eleições e, chegados ao poder, continuam interessados em legitimar, pela via eleitoral, o seu poder. É evidente que com o tempo, o enfraquecimento do estado de direito e o controlo que exercem sobre os meios de comunicação, vão restringindo a possibilidade de crítica ao Governo e as campanhas eleitorais tornam-se menos livres. A erosão dos direitos fundamentais, em particular das minorias, é lenta e há um confronto constante com a sociedade civil e as instituições do estado de direito, que, ainda que vão sendo corroídas, vão resistindo.

No caso de Bolsonaro, os objetivos anti-democráticos e contra o estado de direito não estão escamoteados em nenhum resquício de linguagem liberal, o que é significativo da sua intenção de pôr em prática o que apregoa. E, o que diz define-o como um fascista, ou, se preferirmos, como um neofascista.

É abertamente anti-democrático e defensor da ditadura militar. No passado, declarou várias vezes que o voto não servia para nada, que era preciso uma “guerra civil” e “matar 30 000…incluindo o FHC” (Fernando Henrique Cardoso). Bolsonaro tem repetido que a única coisa que aceita como resultado das eleições é a sua vitória e ameaça com golpe militar se perder.

Na primeira volta há um amplo leque de candidatos democratas da esquerda do centro e da direita: Haddad, Ciro, Boulos, Alkimim e Marina, tudo votos anti Bolsonaro.

Como todos os neofascistas é um populista. Para ele, os indivíduos, na sua enorme diversidade e os seus direitos, não existem, para ele o povo “é apenas uma ficção teatral” (Humberto Eco). Bolsonaro, tem a palavra “povo”, constantemente na boca, mesmo quando diz “eu sou favorável à tortura e o povo é também”. O “povo” deixou de ser o dos grandes comícios e passou a ser um apanhado das declarações mais reaccionárias nas redes sociais.

Uma das características do Fascismo é o apelo às frustrações da classe média, ao seu medo do futuro e o seu arrepio perante, citando Humberto Eco, a “pressão dos grupos sociais mais desfavorecidos”. No Brasil, o horror que uma parte da classe média manifestou estes anos pela ascensão social dos pobres, a crise económica e os casos de corrupção são explorados por Bolsonaro, que não perde uma oportunidade para mostrar o seu desprezo pelos mais pobres, que [segundo ele] recebem dinheiro para “fazer filhos que não têm a mínima condição para serem cidadãos”. Ao contrário do fascismo tradicional , Bolsonaro não defende o estatismo, mas antes um capitalismo selvagem contra os direitos sociais dos mais pobres, o aumento da desigualdade que é o problema mais grave do Brasil, por isso tem o apoio dos mais privilegiados, dos herdeiros dos senhores de escravos.

O machismo é outra característica do Fascismo, onde se encontra o desprezo pelas mulheres e o ódio à homossexualidade – lembremos que os nazis consideravam os homossexuais uma peste e, por isso mesmo, muitos foram mortos em campos de concentração. Bolsonaro defende que as mulheres devem ganhar menos do que os homens e afirma que os pais devem usar a violência – o “cabedal” , o “cinto”- para acabar com a homossexualidade. Como os machistas, faz do culto das armas, como escreveu Humberto Eco: “o …seu Ersatz fálico”.

Os fascistas exploram também o medo do diferente e fazem “do outro” o inimigo, em nome da pureza racial ou do puritanismo. Bolsonaro é abertamente racista, fala-nos dos descendentes dos escravos, os afrodescendentes,  como parasitas de “ 7 arrobas” e afirma que o seu sangue é mais “puro” do que o dos homossexuais.

Não existe  nenhuma justificação para se votar no fascismo.

Se Bolsonaro triunfar, o Brasil será uma mistura de Fascismo com Neoliberalismo extremo, uma combinação de Mussolini com Pinochet. Enganam-se os que pensam que, como nos Estados Unidos, os contra poderes e o jogo parlamentar impedirá que Bolsonaro ponha em prática a sua agenda reaccionária. Olhem para as Filipinas [de Rodrigo Duterte] e reparem como ele tem cumprido as suas promessas, designadamente, a de assassinar os  consumidores e traficantes de droga (cerca de 12000 assassinados segundo a Human Rights Watch).

No caso de Bolsonaro, não podemos dizer que os brasileiros não estão avisados. Mesmo com toda a informação, muitos que se proclamam democratas, por ódio pelo PT ou por ganância, e por pensarem que ele lhes vai baixar os impostos e vai acabar com os direitos dos trabalhadores, dizem que vão votar Bolsonaro – egoísmo extremo e de vistas curtas. O mais provável é o caos como na Venezuela.

Na primeira volta há um amplo leque de candidatos democratas da esquerda do centro e da direita: Haddad, Ciro, Boulos, Alkimim e Marina, tudo votos anti Bolsonaro.

Não existe  nenhuma justificação para se votar no fascismo.

* Álvaro Vasconcelos, Investigador convidado IRI/USP, São Paulo, 2014-2015; coordenador da obra Brasil nas Ondas do Mundo.

** Fotografia: Debate entre Presidenciáveis na Rede Globo | El País Brasil.

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