No Brasil hoje não se morre de tédio

Crónica n.º 9 – Observatório das Eleições Brasileiras, 2018
Por Renato Janine Ribeiro*
ele não(#EleNão – Manifestação de São Paulo | Imagem: El País)

Uma amiga astróloga publicou em seu Facebook estes dias: “O Brasil terá quatro anos de crise econômica e social, a maior de sua história, entre 2019 e 2022. Este é o consenso dos astrólogos”. Ela está apavorada com a possível vitória de Jair Bolsonaro, o candidato da extrema-direita, que pelo andar da carruagem poderá até mesmo vencer este domingo, já na primeira volta – mas a mesma crise ocorrerá seja quem for o vitorioso, agora ou no dia 28, data da final da Copa eleitoral, tais são os problemas acumulados e tal o racha de valores no País.

Nesta hora, a política brasileira pode matar muita gente do coração, mas de tédio, seguramente não. Estamos vivendo um suspense intenso, que teve como maior constante um aumento sistemático das intenções de voto no extremista. Os analistas políticos previam sua desidratação à medida que começasse a campanha, até porque tinha meros 8 segundos diários por programa na rádio e TV, contra quase 5 minutos do candidato da direita, o ex-governador de São Paulo Geraldo  Alckmin – mas, enquanto este último patinava rumo à irrelevância, o ex-capitão ia subindo. Atribuiu-se a ele um teto de 20, depois de 25, depois de 30%, e ele os foi ultrapassando. O atentado contra ele, ação de um lobo solitário, poupou-o do desgaste dos debates com os concorrentes, em que ele estava se saindo mal, e o transformou em vítima.

Mais que tudo, a campanha de Bolsonaro se baseou no WhatsApp, a rede digital secreta, na qual as mensagens não se tornam públicas, dificilmente são passiveis de desmentido e menos ainda de processo na Justiça. Foi o triunfo da fake news, porque seus partidários difundiram montagens do homem que o esfaqueou junto com os líderes do PT, vídeos em que a grande manifestação convocada pelas mulheres contra seu machismo – e que teve muitos homens, Brasil afora – era transformada quase em culto satânico, e mais por aí. Some-se a isso o forte apoio dos pastores evangélicos de extrema-direita, especialmente no fim de semana passado, o último antes da eleição.

Tudo isso decorre do fato de que o descontentamento enorme com o PT, afastado da presidência sob acusações de corrupção, não foi apropriado devidamente pela direita, concentrada no PSDB (que Fernando Henrique Cardoso liderou, mas não lidera mais) e no PMDB do presidente Michel Temer. O governo atual não entregou a melhora de vida prometida e, além disso, foi alvo de denúncias de corrupção iguais, pelo menos, às que fulminaram o PT. Sem ídolos à esquerda ou à direita, muita gente optou pelo extremismo de direita. O ex-capitão se mostrou blindado a todo ataque. Desmentidos não fazem nem mossa em seus eleitores, que vivem de fake news. O mundo da fantasia capturou o imaginário deles.

Faltando dois dias para a eleição, não se sabe ainda o que vai acontecer domingo.

Primeira hipótese, a mais provável: Bolsonaro lidera, passa dos 40% de votos válidos, mas não chega à maioria absoluta. Haddad, do PT, se habilita a ser seu concorrente na segunda volta. Tem, porém, um grande problema: a rejeição ao PT é enorme e lhe será difícil ultrapassar a extrema-direita. Muitos irão para Bolsonaro, outros se omitirão. Haddad precisará se aproximar da direita, prometer ser duro com a corrupção no próprio PT (não que esse partido tenha sido mais corrupto do que seus adversários) e, ainda, deixar claro que não é Lula. A identificação com o líder preso (“Lula é Haddad, Haddad é Lula”) ajudou muito até agora, mas será preciso mudar – muito – a estratégia. Uma terá servido para superar os 20% de intenções de voto, mas para atingir 50% mais um dos sufrágios outra será necessária.

Segunda possibilidade: os eleitores de direita se bandeiam em massa para Bolsonaro, atraídos pela ideia de votar no vitorioso, e ele ganha já no primeiro turno. Isso só acontecerá se praticamente todos os eleitores da direita não fascista desertarem seus candidatos, acabando talvez com suas perspectivas políticas. Segundo uma pesquisa divulgada quarta-feira à noite, o militar contava com 38% dos votos válidos: precisaria ganhar mais 12% em três dias.

Terceira hipótese, a menos provável: Ciro Gomes consegue superar Haddad e vai para a segunda volta. É bem difícil, porque Ciro está abaixo dele pelo menos dez pontos porcentuais. Porém, há um movimento nessa direção, menos por simpatia em relação a Ciro e mais pelo receio de que o antipetismo eleja Bolsonaro. Seria trazer o segundo turno para o primeiro, isto é, votar a frio, com a razão, e não a quente, com o coração. Como disse o próprio Ciro, ele se considera a segunda melhor opção de muitos. (Ciro não é tão associado ao PT, porque manteve sua independência, mesmo tendo sido ministro de Lula, e por isso sofre menos rejeição).

Um sinal forte desta eleição é o esvaziamento e divisão da direita que poderíamos chamar de democrática, mas que mesmo assim patrocinou o impeachment de Dilma Rousseff e causou, desta maneira, sua própria ruina. O laborioso trabalho de convencer a direita brasileira a viver na democracia, que demorou anos e em boa parte foi obra de Fernando Henrique Cardoso, depois sustentando seus governos, está seriamente ameaçado – isto é, se não estiver liquidado. Isso não é nada bom, ainda mais porque a direita, que no Brasil se esconde sob a denominação de “centro”, é bem mais conservadora que a direita das democracias europeias, que por sinal não sente vergonha de dizer-se direita, porque é uma posição inteiramente democrática.

Precisaremos segurar nossa ansiedade até as 20 horas de domingo, no horário de Brasília, meia-noite em Lisboa, quando se encerram os últimos postos de votação, nos estados do Amazonas e do Acre, e o tribunal eleitoral divulga os resultados já apurados que, cobrindo a maior parte do Brasil, serão quase definitivos.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

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