O que os candidatos querem?

Crónica n.º 8
Por Renato Janine Ribeiro*

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Enquanto as pesquisas indicam um avanço de Fernando Haddad, o candidato do PT e do ex-presidente Lula, com chances de derrotar o nome da extrema-direita, Jair Bolsonaro, é bom perguntar o que cada um dos principais presidenciáveis brasileiros quer.

Nem sempre é fácil perceber isso.  Dois anos e meio depois de Dilma Rousseff ser afastada num processo rumoroso, mas que teve o apoio de muitos brasileiros, enquanto seus defensores se calavam, o seu PT volta ao favoritismo. O que promete ele? “O Brasil feliz de novo” é seu slogan, aludindo aos oito anos Lula (2003-2010). Mas o que significa isso, hoje?

Haddad foi um ministro da Educação de grandes realizações. Dobrou as matrículas no ensino superior federal, criou 18 universidades públicas e, além disso, destinou dinheiro e expertise ao ensino básico, que compete aos Estados e municípios, mas que eles não conseguem tocar sem o apoio da União. Sem a menor dúvida, retomará o protagonismo da educação nas políticas públicas. Fora isso, haverá de reverter ou pelo menos frear a supressão de controles estatais e sociais sobre a economia, promovida pelo governo Temer.

Mas seria difícil imaginar que promova uma gestão irresponsável da economia: como prefeito de São Paulo (2013-2016), reduziu a dívida da cidade, detonou uma quadrilha de corruptos que operava fazia anos e foi responsável nas finanças – a ponto de se prejudicar eleitoralmente, não tendo sido reeleito ao final de seu mandato.

Das ideias de Jair Bolsonaro, de extrema-direita, hoje líder nas pesquisas de voto, pouco se sabe. Ele é apenas o candidato do antipetismo e da recusa cabal dos direitos humanos. Estatista e nacionalista no passado, hoje afirma defender uma agenda ultraliberal de privatizações e presta (literalmente) continência à bandeira dos Estados Unidos. Se a eleição se jogar entre petismo e antipetismo, tem chances de ser eleito, mas há o fundado receio de que não saiba o que fazer da economia (desautorizou seguidas vezes seu guru na área, o empresário Paulo Guedes, que por sinal tem defendido medidas inviáveis) e de que adote uma agenda de repressão à liberdade pessoal, sobretudo de costumes, em especial atacando mulheres, negros, indígenas e LGBTs.

Além desses favoritos, é preciso mencionar outros dois candidatos, que ainda não estão fora do páreo. Ciro Gomes é o postulante por um centro ou centro-esquerda, que valoriza as políticas sociais do governo Lula, mas não deseja a volta do PT ao governo. Promete rever algumas medidas de Temer no apagar das luzes, como o sinal verde à venda da poderosa Embraer à Boeing. Evoca constantemente seu passado de gestor: como prefeito de Fortaleza, governador do Ceará e ministro de Itamar e posteriormente de Lula, jamais teve défice nas contas que administrou.

Finalmente, Geraldo Alckmin, que patina bem abaixo dos 10% mas é o candidato do sistema. Presidente do PSDB, que no passado elegeu Fernando Henrique Cardoso, apoiou as medidas econômicas de Temer mas procura se dissociar do impopularíssimo presidente. Muitos analistas entendem que, ao patrocinar o impeachment de Dilma (que parte da população chama de golpe), o PSDB queimou as chances de ganhar estas eleições. Tivesse o mandato dela seguido até o fim, o PT estaria desmoralizado e o PSDB, consagrado. Seu programa é, essencialmente, dar continuidade à flexibilização da economia e à redução do papel do Estado nesta última. Aliás, chegou a sugerir a cobrança de anuidades nas universidades federais, o que toca num nervo sensível dos estudantes e futuros estudantes.

Mas o cenário continua pulverizado. A direita propriamente dita, que no Brasil se autodenomina “centro”, rachou entre quatro principais nomes: o próprio Alckmin, do PSDB; Henrique Meirelles, do PMDB, o banqueiro que foi ministro de Lula (com sucesso) e de Temer (sem o mesmo êxito); Alvaro Dias, dissidente do PSDB e que baseia sua campanha numa nota só, a denúncia do PT por corrupção; e João Amoedo, outro banqueiro, que defende (pelo Partido Novo) uma agenda ultraliberal, sem nenhuma política social, alegando que o mercado sozinho resolverá o problema da pobreza. Fernando Henrique Cardoso tentou, esta semana, reuni-los em torno de Alckmin, com resultado nulo. Aliás, ele também pediu isso a Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, candidata que é mais difícil de situar: ela partiu de uma agenda ambientalista, anos atrás, para hoje focar medidas econômicas liberais e, ainda, a preocupação ambiental. Ninguém acedeu ao rogo do ex-presidente.

E o panorama continua turvo. A última pesquisa do Ibope mostra Haddad ascendendo, consolidando-se num segundo lugar das intenções de voto, com 21%, depois de Bolsonaro, com 27%, mas à frente de Ciro, com 12%, e de Alckmin, com 8%. Já no segundo turno, Bolsonaro perderia para todos eles: para Ciro, por 44 a 35%; para Haddad, por 42 a 38%; para Alckmin, por 40 a 36%. No caso dos dois últimos, a decisão está na margem de erro da pesquisa.

É cedo para dizer que a ameaça autoritária está afastada. Não se sabe se os candidatos da direita, ou seus eleitores (que nem sempre seguem as consignas dos votados), efetivamente se unirão em torno de Haddad, caso ele vá ao segundo turno. O nome mais seguro para derrotar Bolsonaro continua sendo Ciro Gomes, mas suas chances de ir para a final desta Copa do Brasil eleitoral estão diminuindo.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

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