A civilização contra a barbárie

Crónica n.º 7
Por Renato Janine Ribeiro*

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A política moderna deu força às instituições. Em meu livro A sociedade contra o social (Companhia das Letras: 2000), sustento que a modernidade cria duas “aberturas” (como no jogo de xadrez): uma é a abertura Maquiavel, outra a abertura Mandeville. Começar o jogo com Maquiavel significa dar toda a força à ação política, no que tem de imprevisto e inovador: é a abertura propícia às revoluções, às novidades, às rupturas. Abrir com Mandevile (o autor da Fábula das abelhas, célebre pelo moto “vícios privados, benefícios públicos”) significa criar instituições sofisticadas que façam até mesmo o mal gerar o bem. Assim, a ganância, inegavelmente um vício, se tivermos instituições como as do mercado, acaba engendrando a livre concorrência, o capitalismo, a prosperidade.

Digamos que o herói, o criador, o príncipe de Maquiavel é raro, e que é raro precisarmos dele. Já as instituições são forjadas justamente para evitar que anti-heróis, que personagens inapropriados destruam o tecido político. Hoje, seu papel é reduzir o mal que gente como Trump ou Berlusconi pode causar à sociedade.

Mas, para isso, as instituições precisam ser fortes e resistentes. Resistirão elas a Bolsonaro, se ele se eleger presidente do Brasil? As últimas pesquisas apontam seu crescimento. Teve 28% das intenções de voto na sondagem do Ibope desta semana, o que é insuficiente para vencer – mas, se considerarmos apenas as intenções de voto válidas, uma vez que houve 21% entre votos nulos, brancos e “não sei” – esse total sobe a 35%, o que se agrava quando se vê que Fernando Haddad, do PT, atingiu 19%, Ciro Gomes 11% e Geraldo Alckmin, do PSDB, meros 7%. Resistirão as instituições brasileiras a uma vitória de Bolsonaro?

Revisitemos Berlusconi e Trump. O cavaliere governou a cena política italiana por longos anos. Mudou a lei para proteger-se de processos. Acabou saindo, mas a extrema-direita hoje está no governo da Itália. E Trump? Nomeou um ministro da Corte Suprema e está para escolher outro. Deixará suas garras na jurisprudência decisiva de seu país por décadas. O Congresso não o enfrenta. Mesmo sem ter revogado explicitamente o Obamacare, vai se aproveitando de tudo o que é brecha no sistema legal para reverter conquistas no plano dos direitos humanos. O emblema desse desastre são as mais de dez mil crianças separadas de seus pais, imigrantes ilegais, ora presas no País.

O Brasil, com instituições mais frágeis, poderá enfrentar um presidente dessa estirpe? É duvidoso. Elas foram cruciais para destituir Dilma Rousseff e condenar Lula à prisão. Mas, nos dois casos, as bases reais das acusações eram fracas. Dilma foi condenada por ter feito o mesmo que seus acusadores fizeram, antes ou depois dela. Lula foi sentenciado porque teria recebido um apartamento que jamais foi seu, e continua não sendo.

As instituições foram fortes para tirar o PT, somadas à mídia e ao patronato. Serão fortes para impor, a Bolsonaro, algum comedimento? Poucos dias antes de sofrer a facada que providencialmente o retirou dos debates – nos quais estava sendo desconstruído – ele falou em matar, a tiros de metralhadora, petistas. Pois o Judiciário entendeu que era apenas força de expressão, e nem mesmo abriu um inquérito a respeito. As instituições são feitas de homens e mulheres; se estes não tiverem um espírito equânime, elas não funcionam sozinhas.

E a novidade desta semana é esta que já indiquei acima: a direita, que no Brasil se autodenomina “centro”, embora seja mais conservadora que os partidos assumidamente de direita de Portugal, Alemanha, França e Reino Unido, continua desacorçoada. Seu principal nome, Alckmin, está nos 7%, e se lhe somarmos João Amoedo, Henrique Meireles e Alvaro Dias, cada um com 2%, chega apenas a 13% – e nenhum deles está querendo apoiar o nome do PSDB. A campanha pela televisão e rádio, da qual Alckmin esperava milagres, já passou da metade e ele continua longe dos dois dígitos. Enquanto isso, Haddad supera Ciro Gomes, o que era de se esperar.

Se no segundo turno estiver o candidato da extrema-direita, seu adversário – seja ele quem for! – representará a civilização contra a barbárie. E no entanto, tal é a divisão no Brasil entre as famílias do PT, hoje recomposta, e do PSDB, hoje pulverizada, que será difícil reunir todos os que sentem alguma coisa pela civilização, para votarem unidos contra a barbárie. Os valores civilizados ainda sofrem das cicatrizes deixadas pelo impeachment. E no entanto será preciso, no dia 28 de outubro, data marcada para a segunda volta, formar uma unidade contra a ameaça de um retrocesso enorme na sociedade brasileira.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

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