Segundo turno com Bolsonaro vs. a centro-esquerda?

Crónica n.º 4
Por Renato Janine Ribeiro*
montagem-3-1526308529128_615x300(FONTE: Arte/UOL)

O quadro confuso da campanha presidencial brasileira vai aos poucos tomando forma. Primeiro, salvo uma intervenção quase divina, Lula está fora do pleito e seu ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, o substituirá. Segundo, em todas as simulações de segundo turno, o extremista de direita Jair Bolsonaro perde a eleição (exceto para Haddad, mas este está subindo e quase certamente o ultrapassará nas pesquisas da semana que vem). Terceiro, o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, candidato pela direita em que se converteu o PSDB, está com sérias dificuldades para ir até a final eleitoral, parecendo improvável que tire o lugar que parece ocupado por Bolsonaro.

“Só o caos favoreceria a eleição de um candidato que sobrepõe a força à razão”, afirma uma de nossas melhores analistas políticas, Maria Cristina Fernandes, do jornal Valor, referindo-se a Bolsonaro. Mas, ainda mais depois do choque nas classes letradas que foi a destruição pelas chamas do Museu Nacional, domingo passado – um museu com enorme acervo, mas sem brigada antiincêndio e com hidrantes secos – tudo parece possível.

Vamos, então. O PT segurou o nome de Lula o quanto pôde, mas o Judiciário brasileiro, que em tempos de campanha eleitoral costuma ser veloz, está lhe impondo a substituição em poucos dias. Lula é um homem inteligente, político sagaz, e não acredito que tenha mantido sua candidatura por vaidade, e sim por cálculo. Avaliou que, quanto mais seu nome carismático estivesse em campo, maior o cabedal de votos que amealharia. E, contra a opinião de todos os analistas políticos, acertou. Nas últimas enquetes, passou de 40% das intenções de sufrágio. Agora, finalmente, é hora de sagrar seu delfim como candidato. Mas é bom dizer, tudo isso já estava na cabeça de Lula. Não foi surpresa para ele a condenação, nem a prisão, nem a inelegibilidade.

Geraldo Alckmin, o outro candidato de extremo sangue frio, apostou num grande fator para ir ao segundo turno: o fato de ter quase a metade do horário eleitoral obrigatório, impropriamente chamado de gratuito, porque é pago pelos cofres públicos. Apresenta-se como quem é, uma pessoa calma, prosaica, sem nada da dimensão épica de Lula, imperial de Fernando Henrique Cardoso, inspiradora de Marina Silva, valente de Ciro Gomes ou violenta de Bolsonaro. Promete restabelecer o diálogo no País, coisa que está mesmo faltando.

Mas tem um calcanhar de Aquiles: as propostas de seu partido são as do governo Temer, o mais impopular e mesmo desprezado de que se tem notícia. Alckmin faz o possível para se dissociar dele, mas com razão Temer, esta quarta-feira, gravou um vídeo chamando-o à ordem (veja-se em https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=iu9jTPVCwHk ). E essa peça, não publicitária, tem tudo para atrapalhar Alckmin, ao revelar um vínculo que ele quer esconder.

Afinal, o Brasil passa pelo trauma de ter dois, de seus quatro presidentes eleitos no período democrático iniciado em 1985, afastados por impeachment. Cinquenta por cento! Uma situação agravada porque, se Collor caiu em 1992 ante a oposição quase unânime da sociedade, Dilma foi destituída tendo o apoio de uma parte variável, não mobilizada, mas que se move em torno de um terço da população. (No Brasil, pode-se dizer que há um terço à direita, outro à esquerda e um móvel).

E, enquanto Temer e seus apoiadores do PSDB iam descumprindo a promessa de fazer o Brasil melhorar imediatamente, tão logo se tirasse Dilma do poder, o terço mais à esquerda se recompunha e o terço indeciso começava a odiar os golpistas, não por terem dado o golpe, mas por não trazerem o prometido. Aliás, o mais grave foi que a própria direita se desencantou com o PSDB e este partido corre o sério risco de ficar fora do segundo turno.

***

Está na hora, paradoxalmente, de já começarmos a pensar no futuro – isso mesmo sem se saber ainda os resultados de uma eleição, em que muita coisa é possível.

Para o PSDB, partido de Fernando Henrique, uma (hoje provável) derrota será um desastre. Já teve quatro derrotas sucessivas para a presidência, desde 2002, todas para o PT. Depois da última, parecia que vivíamos uma contagem regressiva até a eleição tranquila de um nome do PSDB para a presidência em outubro deste ano.  Mas a enorme impopularidade de Dilma, mais a expectativa de antecipar a subida ao poder ainda que pela via torta de um impeachment duvidoso, foram uma tentação forte demais para o presidente do partido, Aécio Neves.

Só que isso deixou o PSDB na linha de fogo. As revelações contra o próprio Aécio o liquidaram politicamente. Desistiu de concorrer ao Senado e vai disputar a Câmara de Deputados, e mesmo esta eleição mais fácil ele pode perder. Ironicamente, sua sucessora no Senado poderá ser, exatamente, Dilma Rousseff… Pior que isso, seu partido carrega a mácula de apoiar políticas duras com o trabalho, generosas com os rentistas mas, acima de tudo, até o momento sem resultados perceptíveis. Há a possibilidade de que o PSDB acabe tendo alguns governadores, inclusive nos Estados-chave que são S. Paulo e Minas Gerais, mas saia enfraquecido das eleições parlamentares e desmoralizado das presidenciais.

Para o PT, uma derrota não seria ruim. O partido se reorganizou, depois de chegar ao fundo do poço em 2016, quando foram poucas as vozes a defendê-lo. Na verdade, desde as manifestações de 2013, por melhores serviços públicos, o PT perdeu as ruas, que antes dominara. O curioso é que nos últimos dois anos o PT avançou muito nas expectativas de voto, mas não voltou a tomar as ruas. Mesmo o encarceramento de Lula despertou protestos presenciais inferiores, em dimensão, aos que exigiram, anos antes, a partida de Dilma do governo. Assim, hoje o PT, o que é espantoso para um partido que historicamente se apoiou nos movimentos sociais, é mais forte nas urnas do que nas ruas.

Continuar na oposição não será, para ele, um grande problema. Somará, em sua narrativa, a injustiça da destituição de Dilma e a do aprisionamento de Lula. Como o próximo período presidencial deve ser bastante difícil, será talvez mais fácil ser estilingue do que vidraça, como se diz no Brasil: atacar, mais que defender; estar na oposição, mais do que no poder.

O verdadeiro problema para o PT será, no governo ou na oposição, definir novos projetos políticos.  A campanha de Lula se baseou muito na volta: “o Brasil feliz de novo”. Mas não temos mais os recursos econômicos proporcionados pelo boom das commodities – e o PT, que em 2002 foi um quase consenso no Brasil, bem maior do que seus votos efetivos, hoje é odiado pela mídia, pelo patronato, pelas carreiras jurídicas no Estado, pela classe média paulista e sulista . Se ganhar o governo, terá que enfrentar essa coligação, inferior em votos mas forte no poder. Como o fará, eis a questão.

***

Finalmente, como seriam hoje, 7 de setembro, feriado que marca a independência nacional, as eleições, a um mês exato da data marcada para elas? Primeiro, exclusão do PSDB. Segundo, Bolsonaro no segundo turno. Terceiro, Ciro Gomes como seu opositor na final eleitoral (mas talvez Haddad, se nos próximos dias ficar claro para a massa lulista que ele é o substituto de Lula na urna eleitoral). Quarto, vitória da centro-esquerda, com Ciro Gomes (hoje) ou Fernando Haddad (daqui a uma semana). Mas política são nuvens, elas oferecem uma imagem que muda a cada instante.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

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