O tecido social brasileiro em dissolução

Crónica n.º 5
Por Renato Janine Ribeiro*
Bolsonaro é esfaqueado durante ato de campanha em MG(Fonte: Fábio Motta/Estadão Conteúdo)

O ataque, quase um assassinato, contra Jair Bolsonaro ilustra – e agrava – a dissolução do tecido social no Brasil. Primeiro foi o Estado que entrou num processo de destruição, com os poderes executivo e legislativo se desmoralizando, perdendo legitimidade, e depois deles o terceiro poder, o judiciário, entrando na mira do desprestígio. Agora é a sociedade que entra em quase-colapso. Em comum a esses preocupantes processos, um ponto: cada um faz o que quer.

Todo aquele que tem algum poder ou força está fazendo o que lhe vem à cabeça, sem se preocupar com nenhum deste de dois grandes outros que constroem a vida social: as outras pessoas e grupos; o futuro. Literalmente, estamos no tempo dos inconsequentes. Esta semana, Bolsonaro afirmou que varreria  petistas a tiro de metralhadora, e os órgãos judiciais, tão velozes no afã de bloquear Lula e mesmo qualquer candidato petista viável à presidência, nem se mexeram. Isso, na política.

No domingo passado, o Museu Nacional ardeu, sobrando apenas algumas de suas enormes coleções. Era uma tragédia anunciada havia muito tempo. Nos últimos anos, a verba para conservação do Museu não passou de 500 mil reais, caindo este ano para apenas 50 mil: mas mesmo o valor mais alto era absolutamente insuficiente para a segurança das coleções, como agora se mostrou. Isso, na cultura.

Esta quinta-feira, o ministro Luiz Barroso, do Supremo Tribunal Federal, deu parecer favorável à prática do homeschooling, defendido por alguns como uma forma de educar os filhos em casa, fora da escola. Essa prática é condenada pela grande maioria dos educadores, porque limita seriamente a socialização das crianças. Afirmo, há vários anos, que as cortes brasileiras são bastante favoráveis aos direitos humanos, sobretudo os de titularidade individual, como é o caso, mas pouco sabem da democracia e dos direitos sociais. A decisão dá aos pais um controle sobre os filhos numa dimensão que é difícil de defender numa democracia, em que as crianças têm seus próprios direitos, inclusive o de se socializarem e de defenderem personalidades autônomas em relação a seus genitores. Mas, com o enfraquecimento do tecido político, alguns ministros do STF, entre eles Barroso, se têm posto a reescrever a própria Constituição e a tomar decisões cada vez mais políticas, no lugar dos eleitos do povo.

Estamos assim numa situação em que se somam uma non-accountability e um não-comedimento. A hybris, a soberba, a desmedida parecem haver tomado conta da coisa pública e, também, das relações sociais. Na dimensão mais política, quem tem algum poder faz uso dele ao extremo. Os juízes, que haviam conseguido uma aura de respeitabilidade na luta contra a corrupção, agora estão sendo cada vez mais criticados devido a medidas   tomadas para ganharem salários acima do limite constitucional, que já é elevado – atualmente, de R$ 33 mil, mas devendo passar para 39 mil , por mês.

Já nas relações pessoais, a intolerância em relação a quem pensa, ou é, diferente está subindo a um patamar muito elevado. Em boa parte, Bolsonaro é responsável por esse clima de ódio, mas ele também é um sintoma de descontentamento. Em 2013, as ruas brasileiras foram tomadas por multidões de descontentes. O Brasil havia melhorado muito em todos os indicadores, sociais e econômicos, mas as pessoas queriam – com razão – melhores educação, saúde, transporte coletivo. Contudo, a falta de organização das manifestações, seu carater espontâneo, a insuficiente cultura política do país produziram gigantesca decepção. Naquela ocasião, talvez pela primeira vez na história brasileira, deitou pé a sensação de que os mais variados problemas teriam solução política. A política apareceu como solução. Cinco anos depois, a política aparece como monstro, como causa de todos os problemas. O apelo a candidatos extremistas, como Bolsonaro e o ainda pouco conhecido Cabo Daciolo, nasceu dessa grande decepção.

Para piorar tudo, os meios bolsonaristas parecem dispostos a uma escalada de ódio, após o atentado a seu líder. E, o que não é menos preocupante, muita gente desconfiou – e vários ainda desconfiam – da veracidade do atentado. Levantamento das reações no Facebook entre 17 e 18h30 de quinta-feira, isto é, pouco mais de uma hora após o atentado, mostram que mais da metade dos que emitiram juízo de valor acreditavam que se tratava de uma montagem, de uma “armação”, para aumentar a popularidade de Bolsonaro, dando-lhe o papel de vítima. Do ponto de vista humano, é sinal de que a compaixão, sentimento por sinal que parece faltar ao candidato, também faltou a quem diverge dele. O mínimo necessário para a convivência social parece estar falhando, no Brasil.

mapa de interação

***

Perspectivas eleitorais? Bolsonaro sobrevive. Não fará mais eventos de campanha, o que para ele é bom, dado seu desempenho pífio em debates e entrevistas. Sua imagem se fortalece na sua bolha, agora com a auréola de mártir. Mas vejam o dado que apontei acima: 43,4% dos posts no Facebook questionando a veracidade do ataque a Bolsonaro, 9,1% associando o ataque ao discurso de ódio do candidato, 5,5% receosos de que aumente o apoio a ele dão um total de 58% que provavelmente estão contra ele, politicamente falando. Os que assumem seu discurso, culpando a esquerda, são apenas 17%. Finalmente,  há 11,8% que criticam quem comemorou o ataque, mas que não são necessariamente favoráveis a Bolsonaro. Em suma, o candidato da extrema-direita, mesmo vítima, não parece ir além da bolha. Continua valendo o que escrevi, horas antes do ataque, na minha coluna desta semana, que agora complemento com essa assustadora breaking news.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

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