Haddad talvez enfrente Alckmin nas eleições brasileiras

Crónica n.º 3
Por Renato Janine Ribeiro*

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Os dois líderes brasileiros, nesta campanha eleitoral para a presidência da República, que se têm mostrado mais calmos são justamente o nome maior do PT, Lula, preso para não se candidatar, e o concorrente do PSDB, Geraldo Alckmin. As estratégias de ambos foram criticadas com veemência pelos analistas da política, e no entanto já estão dando certo para Lula, e podem dar para Alckmin.

Lula, de centro-esquerda, conservou sua candidatura contra ventos e marés. A sabedoria dos politólogos dizia que ele devia promover o mais rapidamente possível sua substituição pelo candidato que o PT lançará de fato, fosse ele Jaques Wagner, da Bahia, ou Fernando Haddad, de São Paulo. Mas a decisão de Lula foi de preservar seu nome na campanha o mais que pudesse, e com isso suas intenções de voto foram subindo sem parar, hoje girando em torno de 40%, o que, dadas as fortes taxas de abstenção ou anulação de voto previstas, podem beirar a maioria absoluta. Lula tem um sangue frio admirável, e mesmo sendo homem do povo, de origem pobre, com pouca educação formal, sabe negociar com as raposas velhas da política como poucos.

Alckmin, de direita, está há tempos no terceiro pelotão das sondagens de opinião pública. Fica bem depois de Lula e seguramente atrás de Bolsonaro, o nome da extrema-direita. Na verdade, Alckmin disputa o terceiro lugar com Marina Silva e Ciro Gomes. Mas resistiu a todas as tentativas de sair do páreo (talvez cedendo o lugar a Marina, que tem uma boa imagem ética), sustentando que no horário eleitoral obrigatório, com mais tempo na televisão e no rádio, reverterá a situação. O horário começa esta sexta-feira, 31 de agosto, e Alckmin tem quase metade do tempo total, graças a suas coligações. Seu primeiro programa é um ataque muito bem feito ao mantra de Bolsonaro, que confia muito na força policial para resolver toda sorte de problema.

Isso quer dizer que, dentre os cinco nomes possíveis para a presidência, que elenquei na última coluna, a disputa está-se afunilando. Ciro Gomes, o nome alternativo para a centro-esquerda, parece que ficará fora do jogo. Não apenas Lula é o primeiro nas sondagens de voto, como estas também afirmam que ele, uma vez proibido pelo Judiciário de concorrer, transferirá votos suficientes para que seu delfim, Fernando Haddad, tenha uma das vagas no segundo turno. Ou seja, do lado do centro-esquerda, parece que o jogo está se desenhando.

O que hoje resta é então a disputa pela outra vaga, melhor dizendo, fica a questão se Bolsonaro manterá sua posição de vantagem e irá à final, ou será desbancado por alguém, possivelmente Alckmin. Bolsonaro tem eleitores muito fiéis, mas eles são antes de mais nada homens e pertencem aos estados do Sul e Sudeste. Ele é muito tosco com as mulheres e nesta parte do eleitorado enfrenta fortes resistências. Nos estados que mais ganharam com as políticas sociais do PT, em especial o Nordeste e o Norte, também se mostra fraco.

Se Alckmin conseguirá dobrar ou triplicar suas intenções de voto, com os programas de televisão, é essa a questão. Bolsonaro tem apenas oito segundos por dia (o suficiente para dizer algo assim “quero um Brasil em que o homem seja homem e a mulher seja mulher”, digamos). Não é provável que, indo para o segundo turno, supere as resistências fortes a seu nome, mas a maior parte das pessoas que conheço prefere não pagar para ver.

A boa aposta seria, para Alckmin ou Lula-Haddad, ir para o segundo turno contra Bolsonaro. Um tipo de voto útil talvez unisse seus partidos contra o mal maior, suspendendo ou relativizando o fratricídio que consistiu no impeachment e numa aliança, ora fraca, ora forte, do PSDB com a extrema-direita. Mas ao que parece, hoje, esse cenário somente serviria para Haddad.

A outra vaga na final seria então disputada entre a direita e a extrema-direita. Alckmin tem sangue frio (o mesmo que eu disse de Lula). Não perde a paciência e a capacidade de cálculo. Vê à sua direita crescer a candidatura de um banqueiro, João Amoêdo, cujas ideias são próximas das de Bolsonaro (privatizar tudo + acabar com qualquer política pública pela igualdade das mulheres e dos negros), mas tem boas maneiras e por isso não incomoda os assim chamados mercados. Porém, na hora decisiva, é provável que o eleitorado de Amoêdo (provavelmente um por cento, mas que chega a 4 numa única pesquisa que, por destoar das demais e ter sido feita por um banco, está sendo contestada) vá de Alckmin.

Assim, parece que as coisas estão se ordenando melhor. A pulverização acentuada das últimas semanas está dando lugar a uma relativa concentração dos votos, pelo menos do lado da centro-esquerda. Um ponto em que Lula e Alckmin coincidem é que desde o começo ambos acreditam que a disputa final se fará entre seus partidos, o PT e o PSDB, que dominam nossa cena política há mais de vinte anos. Ainda vai rolar água nos rios brasileiros, mas esta perspectiva parece mais razoável agora. Porém, de todo modo, neste momento tudo depende de duas coisas: assegurar-se a transferência de votos de Lula para Haddad, no PT, e Alckmin triunfar de Bolsonaro, no campo oposto. A ver.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

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