Vulnerabilidades complexas X.0

Por Filipa Martins Ribeiro

trapezio_carlo stanga
Ilustração: Carlo Stanga

“Communication leads to community, that is, to understanding, intimacy and mutual valuing” Rollo May

A mudança paradigmática trazida pela globalização e pelas novas tecnologias de comunicação alterou o processo comunicativo em si, e a comunicação, enquanto processo colaborativo e competitivo nunca antes usufruiu de tantas oportunidades. A comunicação assume-se, cada vez mais, quase como uma obrigação moral, um dever profissional e um direito dos cidadãos, mas também uma necessidade política e económica das sociedades, de modo a garantir a tomada de decisões informadas, a formação de profissionais e a gerar competitividade entre instituições e países. E esse foi o moto para a conferência ‘Utopia da Informação: jornalismo cidadão e redes sociais’, que teve lugar no passado dia 11 de Junho, na Fundação Serralves, num projecto para uma nova utopia europeia coordenado por Álvaro Vasconcelos.

De entre estas novas tecnologias que eclodiram com a Internet, destaca-se o desenvolvimento dos media sociais, que expandiram o potencial da comunicação e levaram a alterações profundas nas práticas comunicacionais por parte de vários interlocutores, nomeadamente jornalistas, cientistas e instituições para só mencionar alguns que foram referidos na última conferência do ciclo Uma nova utopia Europei- utopia da informação e jornalismo cidadão.

Assentes numa tecnologia user friendly, os media sociais e em particular as redes sociais, tornaram-se um fenómeno a nível global, especialmente junto das camadas mais jovens. Às redes sociais estão associadas conceitos como a participação e a interactividade e permitem a criação de comunidades ou de grupos onde o fluxo comunicacional é caracterizado pelo imediatismo e globalização. Porém, como alertou Sara Moreira, uma das oradoras,  “ é preciso não esquecer que a tecnologia não pode ser neutra e, ao falar da utopia da informação não podemos dissociar essa utopia das estruturas em que a informação é produzida. Novas estruturas requerem novas formas de organização”, lembrou.

Dominique Wolton, na sua conferência, reforçou o diagnóstico do panorama comunicacional nas redes socais focando-se essencialmente no que se perdeu. O curioso é ver como a História se repete, também no âmbito da comunicação, pois alguns dos argumentos desenhados pelo sociólogo francês já se ouviam em relação à rádio quando apareceu a televisão, por exemplo.

Sim, sabemos que os medias sociais não são uma representação completa nem fidedigna da vida de quem os usa; como todos os media, as redes sociais são uma pequena fatia – altamente mediada e manipulada que apresenta mais o que o outro pensa que quer ver sobre cada um de nós. E tudo bem com isso. “Comunicamos muito nas redes. Mas quem é que ouve efectivamente? O que realmente se comunica?”, questiona Wolton.

Mas, ao contrário do sociólogo, continuo a achar que as redes sociais podem ainda conectar as pessoas, inspirar e educar. Se cada um de nós quiser. E há uma forma das redes sociais fazerem isto: apostando cada vez mais no story-telling. As redes sociais são o palco ideal para essa forma de narrativa que, por sua vez, é muito eficaz nas redes. Os media sociais são, de facto, um lugar de representação de memórias e identidade, e um espaço de participação, de criação e de partilha. O papel da memória pessoal na construção de uma memória cultural, a subjectividade e a transitoriedade que os caracterizam, ou mesmo, o modo como acontecem, fazem deste um campo ainda por explorar e que não se resume a teorias da conspiração, a fake news, a pseudo-ciência ou a clickbaits. Mas continuam a não ser  o media perfeito, como nenhum é.

De seguida, refiro alguns pontos que não foram discutidos no debate, mas que o podem complementar.

Brechas dos media sociais

Investigação recente identificou três tipos de vieses que tornam os media sociais em ecossistemas vulneráveis a desinformação quer esta surja de forma intencional ou acidental.

Em primeiro lugar, constam os vieses cognitivos que surgem da forma como o cérebro processa informação.  O cérebro tem uma capacidade limitada para processar informação , daí andarmos muitas vezes em overload. E este ponto foi bem focado por Dominique Wolton que, acima de tudo, quis questionar sobre quais são as nossas prioridades no que respeita aos nossos hábitos informacionais. Queremos mesmo os nossos filhos e netos a serem educados por youtubers?

Em segundo lugar, temos os vieses na sociedade. Quando as pessoas se ligam directamente com os seus pares, os vieses sociais que determinam a sua selecção de amigos depende da informação que eles vêem (ver https://forumdemosnet.wordpress.com/2018/06/01/o-camara-de-eco-social-e-a-bela-adormecida/#more-1522).

Em terceiro lugar, temos os incontornáveis vieses que vêm dos algoritmos usados para determinar o que cada um de nós vê nas redes sociais. A personalização da informação vem lado a lado com uma maior vulnerabilidade à informação.

Mesmo com investigação a mostrar como indivíduos, instituições e sociedades são manipuladas pelos media sociais, há muitas questões por responder. É muito importante perceber como estes vieses interagem entre si, tornando as nossas vulnerabilidades ainda mais complexas. E as soluções não virão só da tecnologia, mas também das vertentes cognitivas e sociais do problema.

Ainda que superficilamente, Wolton estendeu a sua perspectiva menos entusiasta das redes sociais aos avanços da inteligência artificial (que não se resume apenas à robotização da sociedade). Não esqueçamos que todos somos controlados pelo Google e pelo que ele mostra nos resultados das nossas pesquisas. A grande questão de fundo é: o que se passa connosco – humanidade – que estamos a resumir os nossos avanços tecnológicos a tecnologias de controlo? Por correlato, a nossa aceitação passiva da tecno-servidão que nos faz, diariamente, que aceitar serviços e aplicações que não desejamos e não necessitamos.

Assim, a questão de fundo colocada por Wolton continua a fazer todo o sentido: quais são as nossas prioridades enquanto indivíduos e enquanto sociedade?

 

 

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