Maio de 68: (ainda) um beco sem saída

Por Filipa M. Ribeiro

“Quando a gente quer olhar tudo, acaba descobrindo o que há de feio no mundo.”
Erico Veríssimo, in Música ao Longe

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O ambiente era de expectativa porque, apesar de haver uma certa dominância do passado, ali estava a oportunidade de descobrir ou discutir a crença num futuro, o da utopia da igualdade e participação. Foi esse o tema da primeira conferência do Ciclo “Utopias europeias: o poder da imaginação e os imperativos do futuro”, numa ambiciosa iniciativa de Álvaro Vasconcelos e da Fundação de Serralves.

No final de um debate entre Adolfo Mesquita Nunes, Inês de Medeiros e Marisa Matias, parece-me que se deram constantes passos para o lado à volta da primeira grande questão lançada pelo moderador, Álvaro Vasconcelos: “o que foi o Maio de 68?” E o que mais se notou nas respostas foi o facto de que nenhum dos oradores convidados viveu o Maio de 68 e vive a sua herança através de discursos muito indirectos e condicionados. Em última análise, falaram como se tivessemos chegado a um beco sem saída em todos os últimos caminhos que nos restavam na herança de um Maio de 68. Se calhar, chegámos.

E talvez essa seja a única conclusão possível, no momento presente e imediato, quando falamos em participação e igualdade. Apanhados num círculo vicioso é verdade que sabemos muito mais do que esperávamos; temos tido uma sorte tremenda, o que é outra maneira de dizer que temos mantido os nossos olhos e respondemos quando alguma coisa surge, como se viu nas marchas das mulheres em Espanha ou em movimentos como o #metoo. No entanto, por outro lado, precisamente porque temos reunido tantos factos novos, temos muitas mais combinações possíveis e esquecemos outras fundamentais. Cada um de nós, à sua maneira, pode ser olhado como tendo o mesmo problema que os oradores convidados mostraram ter, com ou sem carreiras de mediatismo político: estamos simplesmente a reunir dados, sem um quadro imaginário onde os colocar e, por isso, sentir-nos-emos mais frustrados que agradados. Talvez tivesse sido isso que Maria Matias quis dizer ao afirmar que “a dificuldade de lidar com as palavras reflecte-se e mascara a dificuldade de lidar com as realidades políticas”. Já Mónica Ferro, Secretária de Estado Adjunta e da Defesa Nacional e vice-presidente da organização 100 violência, não podendo falar do Maio de 68, falou das causas que lhe interessam, destacando alguns números sobre a saúde sexual reprodutiva e, muito superficialmente, o papel do Maio de 68 na libertação sexual e puritana da mulher. Porém, referiu, “hoje não é a liberdade sexual que está em causa, mas sim a recusa e combate à violência sexual”.

Na opinião da autora deste texto, o aspecto mais positivo deste primeiro debate sobre utopias na Europa veio do público –mérito do organizador pelo formato do mesmo – cujos intervenientes pareceram muito bem informados e mais implicados no espírito do Maio de 68. Porém, a verdade é que o trabalho de recuperação dos sentidos originais do Maio de 68 é, como se viu, penoso, sobretudo para quem não o viveu nem sentiu as lutas subjacentes a essa reviravolta do “proibido proibir”. O sentido superficial do Maio de 68 foi amplamente abordado no debate, mas podia ter sido afastado para dar lugar às camadas sucessivas de sentidos subjacentes. Como na arqueologia, a escavação do que foi o Maio de 68 tem que progredir por camadas. A cada nível, portanto, o esforço é o de recuperar a estranheza, não a familiaridade, do que é dito; o de evitar deixar-se levar por leituras pacíficas; o de ler e reler, pondo-se porquês a cada palavra, a cada conceito, a cada proposição, a cada «evidência» e procurando a resposta, não na nossa lógica, mas na lógica do acontecimento ou da revolução que nunca o chegou a ser. Até que o implícito desta se tenha tornado explícito e possa ser objecto de descrição e, sobretudo, aplicação. Nessa altura, o banal poder-se-á carregar de sentidos novos inesperados. O passado, na sua escandalosa diversidade, ainda não foi reencontrado no que respeita ao Maio de 68 quer o olhemos como uma explosão de hormonas juvenis quer como a morte do comunismo, do capitalismo ou até de Deus, como sugeriu André Malraux. Mas a discussão dos oradores, profissionais da política, ficou-se pela descrição opinada de alguns aspectos colaterais ao verdadeiro significado do Maio de 68 a que apenas Álvaro de Vasconcelos aludiu. A enorme violência de todo o processo de Maio de 68 (o que o distingue abissalmente do nosso 25 de Abril), por exemplo, foi um aspecto que podia ter sido melhor escrutinado. Ou até mesmo a forma como toda uma sociedade avessa a exames morais, foi coagida a olhar de perto os seus valores fundamentais ao mesmo tempo a que se assistiam às marchas estudantis que culminavam sempre em enormes desacatos, com centenas de feridos e, apenas por sorte, nenhum morto. Tudo isto sem que que desse, sequer, para tirar o sono a Charles de Gaule que até se tinha deitado cedo a 10 de Maio de 1968. Outro aspecto de que não se falou foi das (pseudo) reformas educativas que surgiram com o Maio de 68 ou não fosse a Educação o terreno sobre o qual se cultiva qualquer igualdade ou participação.

Para Inês de Medeiros, o Maio de 68 “teve muitas utopias, algumas concretizaram-se, outras nem tanto. Umas positivas, outras negativas”. Para a também autarca, a utopia da liberdade terá passado pela reclamação do indivíduo enquanto entidade fora de um sistema, mesmo numa sociedade crescentemente individualista. E esse individualismo foi sempre o grande inimigo dos utópicos do Maio de 68. É certo que estudantes e trabalhadores tiveram pequenas vitórias em algumas das suas batalhas, mas num caldo muito turvo de anti-comunismo, anti-capitalismo, anti-institucionalismo, anti-autoritarismo (com o eco que teve no bloco soviético em 1989); enfim, muitos anti-qualquer coisa que depois mantiveram o ideal e a concretização longe. A ideia de que o mundo podia ser melhor ficou e continua perto, com impulsos utopistas mais ou menos intermitentes.

A segunda pergunta lançada pelo moderador remetia para a relação entre movimentos como o #metoo e o Maio de 68. Mónica Ferro considera que as campanhas têm tónicas diferentes. Marisa Matias defendeu que Maio de 68 “foi uma revolta e não uma revolução”. Mas, bom, “os nivelamentos são sempre por baixo. Não conseguirás fazer subir a massa: acabarás somente por suprimir as elites”, nas palavras de Simone de Beauvoir. E Adolfo Mesquita Nunes, aludindo às Três Marias lembradas por Álvaro Vasconcelos, salvaguardou “que os provocadores são precisos”.

Muitas outras questões ficaram por responder acerca do que foi realmente o Maio de 68, em que a luta feminista foi um dos corolários. Por exemplo: a ligação inegável entre a educação liberal e o barbarismo que também existiu nesse movimento. Ou a forma como o Maio de 68 definiu o que entendemos hoje por liberdade e diferença ou o que aprendemos sobre a diversidade.  Afinal, “é precisamente a cultura e a sua expressão em termos de unidade na diversidade que nos candidata à esperança quando pensamos no futuro da Europa”, segundo a Ideia de Europa, de George Steiner. Ou como é que o Maio de 68 abalou a nossa Fé na Utopia? John Gray diz que a fé na revolução foi eliminada pela história do século XX, mas agora com um revivalismo em rede, essa fé renasce em movimentos sociais. E depois? Se o Iluminismo não deixou de ser alheio ao terror que vimos na Europa no século XX, qual poderá ser, a longo prazo, a herança ainda não manifesta do Maio de 68? Qualquer que seja a nossa resposta, é preciso ter em conta de que não há nada melhor do que a ignorância para a pessoa se convencer de que sabe tudo. E isso deixa-nos sempre em becos sem saída.

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