Maio de 68, 50 anos depois: a igualdade como horizonte utópico

Por uma feliz coincidência, a primeira das conferências do Ciclo Utopias Europeias tem lugar no mês em que se comemoram 50 anos de Maio de 68, movimento de revolta que se estendeu, nos anos 60, pelo mundo inteiro e que teve o seu momento mais espetacular em Paris, no mês de Maio de 1968. A década de 60 foi uma década de muitos “Maios” na Europa – nomeadamente, em Itália, na Checoslováquia, na Alemanha, em Portugal, em Espanha e na Bélgica (onde eu então vivia) nos Estados Unidos, com a emergência da contracultura hippie e dos movimentos pelos direitos cívicos e contra a guerra do Vietnam, no Brasil com as grandes manifestações contra a ditadura – as maiores, desde o golpe militar de 64 que tinha derrubado a democracia – e noutros países da América Latina.

Não se trata de comemorar aqui um movimento que se defendia avesso a comemorações, que com mais ou menos fausto eram característica da velha sociedade patriarcal, tão bem retratada pelo cinema italiano em filmes como o Divórcio à Italiana, ou Seduzida e Abandonada de Pietro Germi, trata-se de tentar compreender o que ficou do vento de liberdade, traduzido no slogan: sejamos realistas, exijamos o impossível. Quais são as grandes causas que hoje traduzem esse espírito, de ousar o que até ontem parecia irrealizável?

Cinquenta anos mais tarde o eco mais forte do sopro de liberdade de 68 parece-me estar no movimento #Metoo e nas grandes manifestações de mulheres em Espanha, bem como na mobilização quase universal pela utopia da igualdade de género.

Até chegarmos a este ponto foi preciso percorrer um longo caminho desde o Maio de 68 parisiense, no qual a questão do lugar das mulheres na sociedade ainda não era uma reivindicação forte. Embora as mulheres estivessem presentes nas grandes manifestações, nos anfiteatros ocupados, poucas tomavam a palavra e escassas foram então as reivindicações feministas.

Daniel Cohn Bendit, falando sobre o movimento das mulheres que, apesar do que foi dito, encontrou parte da sua inspiração no Maio de 68, diria muitos anos depois: o movimento feminista é uma revolta não só contra a sociedade, mas também contra os esquerdistas – contra o machismo esquerdista (Daniel Cohn Bendit, Forget 68, Edition de L’Aube, 2008)

 

Antoinette Fouque criaria,em Maio de 68, na Sorbonne ocupada pelos estudantes, o Comité Revolucionário de Ação Cultural que, segundo ela queria uma revolução cultural, de civilização, que fizesse com que … fossem iguais em direitos e em competências criadoras. (in MLF Psycanhanalyse et politique 1968- 2018, 50 anos de libération des femmes)

Em 1968, as mulheres libertavam-se do conservadorismo, do puritanismo, de uma moral autoritária patriarcal e machista. Em França, em 1967 tinha sido legalizada a pílula contraceptiva, mas o aborto era crime e nas residências universitárias de Nanterre, onde a revolta começou, a partir de certa hora eram proibidos os encontros entre rapazes e raparigas. Cohn-Bendit começou a ser conhecido por ter feito campanha para acabar com essa aberração, razão pela qual alguns dizem que Maio de 68 nasceu de uma reivindicação sexual.

Mas em Outubro de 1968, no anseio de liberdade, de contestação do autoritarismo que Maio de 68 impulsionara, nasceu o Movimento de Libertação das Mulheres (MLF), por iniciativa de Antoinette Fouque, Monique Wittig e Josiane Chanel. Não era um movimento misto de forma a “libertar a palavra das mulheres”. Cedo incluiu nas suas reivindicações os direitos das homossexuais.

Em Portugal, país onde a ideologia patriarcal era a doutrina do Estado Novo, três mulheres fizeram sozinhas o seu Maio de 68 feminino, com as Novas Cartas Portuguesas de 1971, onde afirmam Putas ou lésbicas, tanto nos faz que nos nomeiem, desde que se lute e não se perca/Chegou a hora de dizer basta. (in Novas Cartas Portuguesas).

Nos anos que se seguiram a Maio de 68, os direitos das mulheres fizeram enormes progressos com a aprovação, um pouco por toda a parte, de leis a permitir a interrupção voluntária da gravidez. Em França a despenalização data de 1975 com a “Lei Veil”. Em Portugal, anos depois da revolução democrática, várias foram as alterações à lei publicada em 1984, que culminou com o referendo em 2007. Ao mesmo tempo, os progressos dos direitos das mulheres foram acompanhados, em muitos países, por progressos paralelos de direitos LGBTQ. Embora muito falte ainda conquistar, a verdade é que tem-se avançado na luta pela igualdade de género e na luta pelo reconhecimento dos direitos das minorias sexuais.

Porém, 50 anos depois, os valores da revolução cultural dos anos 60, que trouxe o direito à igualdade, têm também vindo a ser contestados. Os progressos significativos que essa vaga de emancipação representou, mormente em termos dos direitos fundamentais e da liberdade dos indivíduos, são hoje postos em causa pelas correntes populistas identitárias que, regra geral, defendem uma perspetiva patriarcal da sociedade, do lugar das mulheres na mesma e defendem que a homossexualidade é uma doença.
Neste contexto, o movimento #Metoo surgiu nos Estados Unidos já não como expressão de libertação sexual contra o puritanismo, mas de libertação da violência sexual, uma das características marcantes da violência contra as mulheres. Apareceu também como uma reação das mulheres à vaga de conservadorismo e de sexismo que as correntes populistas representam e que, nos Estados Unidos, levaram Donald Trump ao poder, apesar das sua atitudes sexistas e da sua violência (pelo menos verbal) contra as mulheres.

A utopia da igualdade surge assim de novo como um horizonte mobilizador das mulheres, mas também de todos as pessoas que se apercebem que os direitos das mulheres são parte essencial dos Direitos Humanos. Recordar e debater Maio de 68 e a sua força inspiradora é também, por isso, colocar, a questão da igualdade e da violência contra as mulheres, como tema central do debate sobre o futuro da União Europeia.

Álvaro de Vasconcelos
Porto, 1 de Maio de 2018

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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