Itália – entre o medo e a esperança

Por Pedro Bacelar de Vasconcelos

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A saída da Inglaterra da União Europeia foi o mais perigoso revês do projeto de reconstrução da Europa, após a Segunda Guerra Mundial. O contributo da Inglaterra e do Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn,  seriam muito relevantes para alterar o rumo que conduziu a União à dramática situação presente. A única declaração positiva de Tony Blair que merece registo, foi o seu apelo patético à repetição do referendo que determinou o Brexit… Agora, quando o seu último discípulo assumido, Matteo Renzi, acaba de ser rejeitado pela segunda vez nas eleições italianas, seria tempo de os social-democratas, socialistas e trabalhistas europeus levarem a sério os sinais de profundo descontentamento que vêm sendo sucessivamente remetidos por eleitores gregos, espanhóis, holandeses, franceses, alemães, austríacos e, de novo, pelos italianos. É enorme a dívida dos europeus para com os italianos, desde a herança das civilizações clássicas até à administração imperial que nem as invasões bárbaras conseguiram apagar. E ainda hoje, o próprio Donald Trump não parece mais do que uma versão “western”, série B, do “cavalheiro” Berlusconi!

Há quase quatro anos, quando a Itália assumiu a presidência rotativa da União Europeia, Matteo Renzi, então Primeiro-Ministro, no discurso pronunciado perante o Parlamento Europeu, destacava a urgência do regresso à Europa dos valores e sublinhava a necessidade de incorporar nas políticas europeias a dimensão humana indispensável à sua legitimação e à salvaguarda da reputação internacional que no passado soube merecer. E lançou aos deputados europeus o desafio de “começar a desenhar o futuro já, porque o mundo corre a uma velocidade maior do que a Europa”. Por essa altura, enquanto o governo italiano criticava a ortodoxia orçamental que arruinou a União e sufocou os povos do Sul, dirigindo um veemente apelo à coragem para mudar de rumo, em sentido oposto, o governo português – então chefiado por Passos Coelho e Paulo Portas – apregoava as doutrinas da austeridade e as virtudes do empobrecimento coletivo, reclamando o reconhecimento da sua exemplar devoção! Além da frente europeia, o Partido Democrático de Matteo Renzi não descurou, na frente interna, o problema das reformas do estado e do regime. Desenhou novas arquiteturas institucionais, ensaiou engenharias de governabilidade e estratégias para reconquistar a confiança dos italianos no sistema político, temas que alimentaram um debate público vivo e aberto que envolveu a oposição parlamentar e os movimentos sociais. Enfim, se bem nos lembramos, tudo ao contrário do que fazia por essa altura o governo português!

Mas de pouco valeram esse esforços! Em 2016, Matteo Renzi acabaria por perder o referendo constitucional que convocou para impor o seu projeto de reformas da República. Nem convenceu os italianos da bondade das suas propostas nem a Europa correspondeu ao corajoso ímpeto reformista com que desafiou o Parlamento Europeu no seu discurso inaugural de julho de 2014. E foi assim que o Partido Democrático foi agonizando ao longo de dois anos para chegar já derrotado às eleições legislativas do passado domingo: com elevadas taxas de desemprego, sobretudo entre os jovens, continuada quebra de rendimentos, bancos falidos e com a Itália a pagar no interior das suas fronteiras as consequências da xenofobia impune dos parceiros europeus apostados em transformar os estrangeiros e os imigrantes em bode expiatório de todos os males que os afligem.

A derrota dos Democratas era já esperada e a boa surpresa veio da direita: apesar de o partido de Berlusconi se ter coligado com os neofascistas, não conseguiram a maioria que ambicionavam.  O partido vencedor foi o movimento rotulado de “anti-sistema – o 5 Estrelas de Beppe Grillo e Di Maio. Por isso, só com o consentimento deles e do Partido Democrático poderá a extrema-direita chegar ao poder. Qualquer que seja o caminho que vão fazer, os italianos não deixarão de continuar a surpreender-nos e de abrir novos caminhos para o impasse em que a direita atolou as nossas democracias e a esperança no projeto europeu de uma vida melhor e generosa solidariedade.

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