Ibérica, eu?

Por Maria Carlos Oliveira

 

            Ibérica, eu?

   Os ódios étnicos, o nacionalismo chauvinista, as reivindicações regionais têm sido o pesadelo da Europa. (..) O sucesso fantástico do modelo americano, do seu federalismo que abarca distâncias imensas e climas diversos, apela à imitação. Jamais a Europa deverá sucumbir à guerra intestina.(…)

O génio da Europa é aquilo que William Blake teria chamado «a santidade do pormenor diminuto». É o génio da diversidade linguística, cultural e social, de um mosaico pródigo que muitas vezes percorre uma distância trivial, separada por vinte quilómetros, uma divisão entre mundos. Em contraste com a terrível monotonia que se estende do ocidente de Nova Jérsia às montanhas da Califórnia, em contraste com aquela avidez de uniformidade que é simultaneamente a força e o vácuo de grande parte da existência americana, o mapa estilhaçado, por vezes profundamente divisor, do espírito europeu e sua herança, tem sido incansavelmente fértil. (…) A Europa morrerá efetivamente, se não lutar pelas suas línguas, tradições locais e autonomias sociais. Se se esquecer que «Deus reside no pormenor».

   Mas como se poderão equilibrar as proposições contraditórias da unificação económico-política com aquelas da particularidade criativa? Como poderemos dissociar uma riqueza salvífica de diferenças de longa crónica de ódios mútuos? Não sei a resposta. Só sei que aqueles mais sábios do que eu têm de a encontrar e que a hora é tardia.[1]

George Steiner

 

Ouvi Saramago defender a Ibéria e arquivei na memória o argumento estético, de que só um grande escritor se poderia lembrar. É, de facto, muito feio o mapa de Espanha sem Portugal! É verdade, é mesmo inestético, mas a minha curiosidade esgotou-se na estética do argumento. Lobo Antunes e Eduardo Lourenço, para citar exemplos recentes, partilham o ideal e, apesar do interesse com que os leio/ouço, a utopia do iberismo nunca me interpelou, contrariamente à de Europa.

O título da conferência proposto pelo Fórum Demos levou-me a outra pergunta, por que razão a temática me é tão indiferente? Por que razão, apesar de defendida por pessoas que gosto de ler, nunca parei para a pensar e a assimilei como uma questão de gosto pessoal que dispensa o exercício argumentativo?

Conheço bastante bem Espanha e gosto muito de Espanha. Travei lutas comuns, aquando da defesa do Douro Internacional contra a lixeira nuclear de Aldeadavila de la Ribera, aprendi a reconhecer a paixão, por vezes quase cega, com que abraçam causas, como superam a desconfiança que se talha nos penedos agrestes da raia que nos separa e nos une na escassez demográfica e na conjugação dos verbos partir e envelhecer. Reconheço o contributo precioso da Universidade de Salamanca para a minha formação académica.

Fecho os olhos e chegam, sem esforço, Quixote e Sancho pela mão de Cervantes, o olhar da Menina(s) de Velasquez, o dramatismo dos Fuzilamentos de três de Maio de  Goya, Toledo e El Greco, Picasso e as revolucionárias Demoiselles d’Avignon, Miró e os grafismos,  Dalí e o sonho, Lorca e a  solidão, vivida no feminino, na Casa de Bernarda Alba, Gaudí e a ainda inacabada Sagrada Família ou a fantasia da Casa Batlló e do Parque Güell, Juan Muñoz e as enigmáticas personagens que habitam o jardim da Cordoaria no Porto, Buñel e o surrealismo, as cores de Almodóvar, os Amantes do Círculo Polar de Julio Medem, a catarse do período negro da Espanha do século XX pela mão El Abuelo de Jose Luís Garcí e das  13 Rosas de Emilio Martínez, La Pasionara, de aparência frágil a contrastar com a dureza fria do discurso, Ortega y Gasset a lembrar a relação intrínseca entre o eu e a sua circunstância, Fernando Savater e Antonio Marina e a reflexão ética, Ballester e a sua húmida Galiza… No entanto, o Iberismo nunca me interpelou, a Europa sim!

Relendo o que escrevo sobre as memórias que me assaltam, reparo que a Espanha que me acompanha é geográfica e cultural. Quando olho para a dimensão política, a primeira recordação leva-me a Isabel, a Católica, e o impulso que deu à Inquisição. Assalta-me o dramatismo das Crónicas de Fernão Lopes sobre a crise de 1385, o Tratado de Tordesilhas de 1494 e a divisão das terras descobertas e POR DESCOBRIR, o 1º de Dezembro de 1640 e a Restauração, Franco e Salazar dividindo o poder numa Península amordaçada, pobre, analfabeta e atrasada, a morte de Humberto Delgado em Espanha, a colaboração portuguesa na prisão dos republicanos que em fuga atravessavam a fronteira, a democracia que chega primeiro a Portugal em 1974, a ETA e os atentados, o pedido de adesão à CEE formulado por Portugal e de Espanha em 1985, abrindo caminho para o desenvolvimento dos dois países e também ao conhecimento mútuo…

Depois da adesão à CEE, os castelos ao longo da raia foram emudecendo as suas recordações de conflitualidade e Portugal e Espanha abriram-se, finalmente, ao diálogo. O velho ditado de Espanha nem bom vento nem bom casamento, que ouvi repetidamente desde criança, foi-se diluindo na espuma deste curto tempo democrático e hoje a Espanha é, como outros, um parceiro Europeu. Encontro mais tarde, num artigo no Expresso de 26.10.2010, as opiniões de Rosa Lã e Miguel Real e espanto-me com algumas coincidências. Rosa Lã defende que “A adesão à CEE mudou para sempre a relação entre portugueses e espanhóis e quase acabou com o velho ditado «de Espanha nem bom vento nem bom casamento” (não consigo evitar um sorriso, o que neste contexto é mais do que isso, é a constatação de um sentir mais profundo) com o alargamento do número de [países] parentes, de 1986 para cá, os falsos gémeos deixam de funcionar no espaço ibérico para dialogarem num «quadro multilateral em que [até] passaram a ter uma relação diferente em termos de política de defesa”. Miguel Real defende que “A Europa matou o iberismo”, tese que merece a minha total concordância, uma vez que “não faz sentido defender uma região na Europa que não é mais do que um espaço/região maior. Não deixamos de ser europeus por termos uma identidade histórica como povo ibérico, ou uma outra que passa pela afirmação contra Espanha”.

Interrogo-me, mais uma vez, sobre as origens desta ideia tão distante do sentir popular e partilhada por tantos intelectuais relevantes.

Constato, na breve pesquisa realizada, que o conceito encerra uma complexidade inesperada, com interpretações diversas, com adeptos conservadores e liberais, monárquicos e republicanos, que responsabilizam a monarquia pela divisão peninsular. A utopia visa afinal  a superação de crises políticas e dos atrasos endémicos que caraterizam a Península. Em Portugal oscila-se, como defende Maria da Conceição Meireles Pereira, entre a utopia e a distopia, tão bem traduzida nas palavras de Oliveira Martins, que “admitia dois patriotismos: o ideal – o hispânico, e o real – o português”[2].

Mas o Iberismo, que atinge o seu auge no século XIX, tem as suas raízes no século XVIII, com Jorge Marchena y Ruíz de Cueto[3], que no seu Aviso al Pueblo Español, de 1792, propõe a constituição de uma federação Ibérica, dando ao projeto um corte progressista e republicano.

Em 1820-23 os liberais espanhóis reclamam a solidariedade dos liberais portugueses, propondo a constituição de sete repúblicas federadas, cinco em Espanha e duas em Portugal.

Em 1851, o catalão Sinibaldo de Mas, publica o ensaio político La Iberia. Memoria sobre la conveniencia de la unión pacífica y legal de Portugal y España, que é também publicado em Portugal em 1852. A utopia chega à imprensa, como evidencia a publicação dos semanários Iberia (bilingue), em Lisboa, e literário A Península, no Porto.

Em 1868 a Espanha vive uma situação crítica na sequência da revolução de 1868, que “expulsou de Espanha a rainha Isabel II e a sua família e perante a ameaça da proclamação da República, a Coroa Espanhola foi oferecida a D. Luís, rei de Portugal, que recusa”. No entanto, “os espanhóis tentam encontrar uma nova solução política em Portugal, oferecendo a coroa ao viúvo da rainha D. Maria II — que entretanto casara em segundas núpcias com a condessa de Edla. Este não recusa de imediato, e põe duas condições para aceitar: que as duas coroas nunca pudessem reunir-se numa só cabeça (evitando assim a repetição do cenário da monarquia-dual), e que a sua segunda mulher fosse rainha.”[4]

A revolução de 1868 põe frente a frente os defensores de uma monarquia democrática e do republicanismo. Valentí Almirral i Llozer, que participa ativamente na revolução,  publica várias obras de temática federalista e catalanista, como Lo catalanisme, convertendo-se num dos “principales dirigentes del federalismo intransigente barcelonês (…). Aunque su proyecto político no se consolida, más de cien años después de su muerte, su legado ideológico y su trayectoria política representan un punto de referencia para entender el catalanismo político.”[5] Do lado português, Antero de Quental não deixa de manifestar a sua desilusão com o fracasso da república espanhola e “Em carta ao editor Wilhelm Storck (1887) o velho socialista relembrou a sua apologia da Federação Ibérica, ilusão da qual desistira à força de golpes brutais”[6].

Creio, no entanto, que hoje não se trata hoje de desistir como Antero, mas de perguntar se fará sentido este projeto político, que não foi capaz de se afirmar no passado. Espanha, tem pouco a oferecer a Portugal. A relevância da extensão geográfica não encontra eco na económica. Do ponto de vista político, sobressai a incapacidade de gerir, de forma razoável, as crises, como evidencia o diferendo entre Madrid e a Catalunha, que, parafraseando José Cutileiro, mais parece uma ópera bufa!

Por outro lado, não posso deixar de concordar, nesta temática, com Miguel Urbano Rodrigues quando escreve que “(…) o  desencontro de idiossincrasias ilumina bem uma realidade: longe de serem «muito parecidos», portugueses e espanhóis distanciaram-se progressivamente, exibindo atitudes quase antagónicas perante a grande e breve aventura da vida.”[7]

Há, de facto, silêncios mais expressivos que muitas utopias! Quem se lembra/sabe que Paulo Gonçalves criou o Movimento Partido Ibérico em Portugal e Casimiro Sánchez Calderón o Íber em Espanha e que juntos assinaram a Declaração de Lisboa que defende uma união entre os dois países e Andorra, como noticiava o Diário de Notícias de 7 de outubro de 2016?

Ibérica, eu? Fico-me pela Europa!

 

Maria Carlos Oliveira

 

 

[1] George Steiner, A Ideia de Europa, Lisboa: Gradiva, 2006, pp. 48-50.

[2] In Revista da História das Ideias, vol. 3, p.264

https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/53834/2/cmeirelespereiraiberismo000120585.pdf

[3]https://www.google.pt/search?q=iberismo&rlz=1C1GGRV_enPT752PT752&oq=iberismo&aqs=chrome..69i57l2j69i60l4.2749j0j9&sourceid=chrome&ie=UTF-8

 

[4] http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-12-01-Franco-quis-invadir-nos-mas-a-Europa-matou-o-iberismo

[5] https://www.escriptors.cat/autors/almirallv/pagina.php?id_sec=3482

 

[6] In Revista da História das Ideias, vol. 3, p.262.

https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/53834/2/cmeirelespereiraiberismo000120585.pdf

[7] in Avante, 9.11.2016.

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