Correto, ma non troppo

Por Gonçalo Marcelo

 

Porque é que, hoje em dia, importa debater o “politicamente correto”? Porque a linguagem é mais do que um mero meio de expressão. Muitas vezes, não é totalmente neutra; pelo contrário, é política ou, pelo menos, admite usos políticos. Uma palavra, uma frase ou um discurso podem enlevar ou ofender, incluir ou excluir aqueles a quem se dirige. E esta coloração positiva ou negativa pode ser aceitável ou inaceitável, consoante a avaliação ética que dela se fizer. Há linguagem perigosa e subversiva, tal como há linguagem censurada e linguagem formatada para ser asséptica e defensiva.

Não é por acaso que a liberdade de expressão é um dos direitos fundamentais de qualquer sociedade liberal. Porém, será que, lá por ela estar consagrada como uma garantia inalienável, pode servir para que se diga tudo e mais alguma coisa, sem olhar às consequências? É óbvio que não. E isso não só por motivos legais, mas também ético-políticos. Aplica-se à liberdade de expressão, mutatis mutandis, aquilo que se aplica ao paradoxo da tolerância: em democracia, tolera-se tudo, menos o intolerável, e o intolerável muitas vezes é a própria falta de tolerância ou de aceitação dos outros, daquilo que é diferente. E é por isso que, em todas as democracias civilizadas, tem havido um esforço (lento, mas gradual) de adaptação das práticas, dos costumes e da linguagem, de forma a tornar as nossas sociedades menos preconceituosas, menos ofensivas e mais acolhedoras da diversidade.

Isso vê-se, apesar das resistências e dos atavismos, em pequenas / grandes conquistas legais e comportamentais. É por exemplo óbvio que existe muito racismo em Portugal. Mas ele é, apesar de tudo, menos explícito do que o era há décadas atrás. Tal como há muito sexismo e muita homofobia, mas avanços como a criminalização do assédio sexual ou a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo foram importantes conquistas civilizacionais que, malgrado os preconceitos arreigados e os comportamentos violentos, tornam hoje menos provável que um casal homossexual que passeie de mão dada na rua seja insultado ou que as mulheres sejam tratadas como se fossem propriedade do “macho ibérico”. Bem sei, infelizmente a realidade desmentirá este cenário idílico todos os dias; muito progresso há ainda por fazer. Tal como é claro que o facto de estes comportamentos se tornarem mais subterrâneos, porque simplesmente são menos aceitáveis no espaço público “aos olhos de toda a gente”, não elimina o problema. Mas o simples facto de se inculcar na cabeça das pessoas que determinados tipos de comportamentos não são aceitáveis é já em si um progresso civilizacional.

E o mesmo se passa em relação aos usos da linguagem. Que se condene e se proíba o discurso de ódio, que se considerem inaceitáveis as narrativas que vilipendiam as minorias ou qualquer grupo historicamente discriminado, que se evite reproduzir preconceitos de género, raciais ou outros, tem de ser considerado, em si, algo de positivo. Porém, isso tudo é precisamente aquilo a que se chama o “politicamente correto”. Mas, aqui chegados, é até curioso que adotemos esta expressão. Já que “politicamente correto” é como “eduquês” ou “neoliberal”. São expressões que só existem na boca dos detratores desses fenómenos; nenhum defensor de determinado tipo de pedagogia reconhecerá que fala “eduquês”, tal como nenhum liberal de direita se afirmará orgulhosamente neoliberal… (contudo, quanto ao “eduquês” não sei, mas que as práticas neoliberais existem e se propagam como um vírus, disso tenho poucas dúvidas).

E, no entanto… passa-se em relação à vontade de correção da linguagem ou das práticas instituídas um pouco aquilo que se passa com tudo o resto. Dependendo da forma como essa vontade se expressa, dos domínios que invade e das doses com que se pretende aplicar, ela pode ser boa (como é sua intenção) ou perniciosa. Porque pode ir longe demais. E aqui abundam os exemplos. Bárbara Reis indica alguns no artigo recente do Público e afirma mesmo que “o moralismo censório é um retrocesso civilizacional”. Quando é que, portanto, a intenção ética se transforma em moralismo e o progresso em retrocesso civilizacional? Por exemplo, quando abundam as acusações de apropriação cultural (sendo caucasiano, eu não poderia usar rastas, se me apetecesse?), quando os estudantes em certas universidades americanas ou inglesas exigem “espaços seguros” o que significa a retirada dos curricula dos seus cursos de qualquer matéria que possa ser considerada ofensiva, incluindo os clássicos (cita-se muitas vezes o potencial traumatizante de Sófocles ou Shakespeare…) ou quando o controlo sobre o humor e a arte é tão apertado que arrisca tornar-se paralisante.

Ou, como o exprime, talvez melhor que ninguém, Ricardo Araújo Pereira: “William Shakespeare acordou e, mal abriu a internet, constatou que tinha incendiado as redes sociais. Uma espectadora da peça Romeu e Julieta escrevera no Facebook uma crónica que se tornara viral. A autora do texto estava triplamente ofendida (…) Quando leu que a página do Globe Theatre tinha sido invadida por centenas de mensagens de protesto, William assustou-se e, à cautela, aproveitou para colocar a tragédia em que estava a trabalhar nessa altura, chamada Titus Andronicus, no recycle bin.” (RAP, “Zuckerberg, 1  Shakespeare, 0” in Reaccionário com dois cês, p. 173).

Tudo isto leva àquilo a que por vezes se chama a “ideologia do politicamente correto” que, por ser excessiva, gera os seus inimigos. E o problema é a relevância política desses inimigos, hoje em dia. Considera-se normalmente que o “politicamente correto” faz parte do establishment. E, por isso, muitas vezes as opções políticas anti-establishment e populistas, também se afirmam como sendo frontalmente opostas ao “politicamente correto”. Não se consegue perceber, por exemplo, a popularidade de Trump, ou de Duterte nas Filipinas, sem este fenómeno. Tudo se passa como se as bases de apoio destas personificações do populismo de direita, sentindo-se oprimidas pelo superego de um politicamente correto que não lhes permitia facilmente exprimir em público o seu racismo e outros instintos boçais, de repente se vissem aliviadas pelas liberalidades de discurso, e de comportamento, dos seus polémicos heróis. Se Trump, o Presidente do país mais poderoso do mundo, pode ser sexista ou xenófobo, porque raio não poderão eles sê-lo também? De repente, como diria Arendt, o mal banaliza-se.

E isto gera uma situação em que, paradoxalmente, quem mais invoca a causa da liberdade de expressão hoje, nos E.U.A., são pessoas cujo discurso é de ódio e, portanto, na prática, inaceitável. Uma das questões prementes e atuais é: deve dar-se palco à extrema-direita em eventos “credíveis” como conferências académicas e, assim, tacitamente legitimar o seu discurso como sendo aceitável numa sociedade democrática? A questão está na ordem do dia do outro lado do Atlântico e tem dividido a opinião pública e académica. Berkeley, por exemplo, cancelou a alegada “semana da liberdade de expressão” onde figuras da alt-right americana falariam; já o Hannah Arendt Center do Bard College, em Nova Iorque, decidiu convidar Marc Jongen (intelectual de serviço do Alternative für Deutschland) para uma conferência sobre a crise da democracia. Ambos os eventos geraram protestos. Mas que a liberdade de expressão seja hoje invocada pelas facções mais intolerantes das nossas sociedades não é só hipócrita; é também muitíssimo preocupante.

Parece, portanto, que a arte de conseguir distinguir o que é ou não é politicamente ou eticamente aceitável no discurso exige alguma fineza. E esse critério deve ser a pedra-de-toque da distinção entre as alternativas políticas que merecem ou não merecem o nosso respeito. Para dar apenas um exemplo, consideremos aquilo a que se costuma chamar o populismo. Não deve haver outro conceito tão usado para descredibilizar adversários políticos como o populismo (talvez a par da “austeridade”). No, entanto, será todo o populismo intrinsecamente “mau”? É preciso não esquecer que não só Trump e o UKIP, como também Bernie Sanders ou o Podemos foram considerados populistas. Mas quando a narrativa de uns é xenófoba e a dos outros progressista e inclusiva, será que podem verdadeiramente ser colocados no mesmo patamar? Parece-me óbvio que não.

O que deve ser rejeitado é o discurso de ódio e as narrativas preconceituosas e que repercutem a injustiça social a diversos níveis. Por isso o discurso político deve ser, na medida do possível “politicamente correto”. Bem como o devem ser os nossos comportamentos e a linguagem que usamos. Ma non troppo, ou seja, sem que isso acabe por atrofiar a criatividade da linguagem, a expressão artística ou o respeito pelas grandes obras da nossa cultura… o que, a acontecer, resultaria num empobrecimento brutal das nossas possibilidades de vida e de expressão. Onde traçar concretamente as fronteiras para cada um destes casos, eis a grande questão. Mas essa é uma questão que só o debate esclarecido pode ajudar a resolver.

 

Gonçalo Marcelo – Investigador no CECH, Univ. de Coimbra (bolseiro FCT); Prof. Convidado na Católica Porto Business School

Cartoon: Jen Sorensen https://splinternews.com/cartoon-can-we-finally-ditch-the-term-political-correc-1793890694

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