Debate Forum Demos – A Polónia e Trump: o debate sobre a identidade europeia

Depois de mais uma debate Forum Demos aqui ficam as ideias, conclusões e reflexões de alguns dos participantes.

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Pedro Bacelar de Vasconcelos

Ao longo dos últimos 3000 anos aqui desembocaram viajantes, mercadores, invasores, imigrantes e refugiados. Do Oriente, trouxeram artefactos, especiarias, crenças e saberes, o alfabeto, a álgebra, a astronomia. Desta herança nasceram os povos da Europa. Criaram reinos e impérios, lançaram guerras, fizeram e desfizeram alianças e, durante algum tempo, dominaram todo o Mundo. Cada povo europeu representa-se uma Europa inventada à sua medida, conforme o seu próprio historial de agravos e glórias. Nessa diversidade cultural, como avisou Álvaro Vasconcelos reside a sua maior riqueza. A identidade política europeia constrói-se sobre o passado, entre os Urais e o Mediterrâneo, com Roma e Cartago.

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Ana Rodrigues

Até há pouco tempo, vivia-se em Portugal uma espécie de consenso que, à excepção de partidos e movimentos marginais, excluía do debate político as matérias de discussão racista ou xenófoba. Ou porque esse consenso se alimentasse da narrativa de excepcionalidade colonial portuguesa, ou porque se alimentasse do facto de a democracia se ter seguido a um regime ditatorial de direita (proscrevendo portanto qualquer vestígio de ideologia identitária e de extrema-direita), certo é que não havia sinais políticos expressos de desconforto com o ‘outro’ (i.e. aquele por oposição ao qual se forjará uma pretensa identidade nacional). Com alguns acontecimentos recentes, ficou claro que esse ‘outro’, seja ele um imigrante ou um membro de uma minoria étnica, passou a poder ser objecto de um discurso estigmatizante mainstreamizado, e já não puramente marginal. Curiosa, neste aspecto, é a tónica na associação entre minorias e insegurança, ou mesmo entre minorias e terrorismo, à exacta semelhança do que se vai vendo por essa Europa fora.

No âmbito europeu e global, a evolução não tem sido muito tranquilizadora. A era da pós-verdade ajuda a criar um contexto propício ao aniquilamento dos interditos – designadamente dos interditos históricos. Por um lado, é evidente que o combate a este estado de coisas passa, também, por uma aposta na democratização, embora essa democratização pareça cada vez mais utópica, especialmente se pensarmos na percepção que dela têm os cidadãos. Portugal, por contraponto, por exemplo, à Alemanha, sente que pouco dita quanto às regras do jogo – e quanto mais sente menos dita, num efeito bola-de-neve. Ao mesmo tempo, há alianças estratégicas que vão ganhando força, independentemente ou mesmo à revelia de um semi-renovado eixo Paris-Berlim. Os países do Visegrado são disso um bom (ou mau, no caso) exemplo. Desse ponto de vista, para Portugal, talvez o Brexit possa representar uma mudança psicológica interessante: desaparecendo o ‘mais antigo aliado’, o foco pode mover-se da atlanticidade para os países da Europa do Sul. A ver vamos…

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Gonçalo Marcelo

Penso que uma das ideias que atravessaram o último debate, e que me importa sublinhar, é o da dificuldade de pensar o projeto Europeu, a sua identidade e possibilidades de futuro, quando o principal fator agregador da União Europeia mais não parece ser que uma união de interesses embora, é claro, esses interesses possam ser diferentes de caso para caso. Os casos de populismo e xenofobia a leste mostram que, infelizmente, as preocupações de defesa, face ao gigante Russo, parecem ser uma motivação bem maior para a permanência na União Europeia do que propriamente a defesa dos direitos humanos, ou o acolhimento do outro. Por outro lado, na zona Euro, a popularidade do Euro e da própria União parece flutuar consoante o ciclo económico que se vive; e esta conjugação de fatores acaba por fragilizar o projeto Europeu, sobretudo numa altura em que, face ao relativo distanciamento entre países “credores” e “devedores” no seio da zona Euro após a crise, a possibilidade federalista parece ter pouca credibilidade e, ao mesmo tempo, não existe propriamente uma solução integrada que permita mitigar alguns dos desequilíbrios económicos e financeiros entre os Estados membros. Seja como for, pareceu ser consensual, entre nós, a ideia de que é importante Portugal poder ocupar um lugar de maior destaque no debate Europeu. Mas isso só acontecerá reforçando internamente o próprio debate sobre a Europa pois só tendo ideias claras sobre o que queremos as poderemos apresentar com credibilidade no contexto Europeu.

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