Do Pontal a Charlottesville

Pedro Bacelar de Vasconcelos

 

No Pontal, o líder da oposição inaugurou o ano político com um discurso que imita o estilo de Donald Trump e copia alguns dos tópicos preferidos da extrema-direita americana e europeia que apontam os imigrantes como os responsáveis por toda a miséria e a insegurança do mundo ocidental. Prenúncios inquientantes que não podem ser ignorados, depois do silêncio cúmplice face às declarações racistas contra os ciganos, pronunciadas pelo seu candidato a Presidente da Câmara de Loures. Não era esta a linguagem do PSD e é lamentável esta colagem às palavras de ordem dos “supremacistas brancos”, da Direita Alternativa, do Ku Klux Klan e outros movimentos racistas e xenófobos que se manifestaram em Charlottesville, onde foi assassinada uma mulher de 32 anos por um dos manifestantes, em nome do ódio aos estrangeiros, dos preconceitos raciais, da intolerância religiosa e do encerramento das fronteiras.

Pedro Passos Coelho afirmou no seu comício: “…O que é que vai acontecer ao país seguro que temos sido se esta nova forma de ver a possibilidade de qualquer um residir em Portugal se mantiver?” Porém a lei que o líder da Oposição pretendia denunciar como sendo uma ameaça à segurança e à tranquilidade dos portugueses, é uma lei que apenas se limita a proteger aquelas pessoas que, tendo sempre vivido em Portugal, corram o risco de ser expulsas para outro país onde nunca tenham vivido e onde não conheçam ninguém. Aliás, a lei em causa limita-se, no essencial, a transpor para a ordem jurídica portuguesa uma diretiva da União e consagra o regime comum a outros estados europeus. E, além disso, a nossa Constituição proíbe a pena de morte e a prisão perpétua justamente porque acreditamos na capacidade de regeneração de todos os seres humanos, qualquer seja a sua nacionalidade, e reconhecemos o valor do arrependimento de quem cometeu um crime e uma vez cumprida a pena a que foi condenado, tem o direito de ser reintegrado na sociedade a que pertence.

É nos Estados Unidos da América que mais exuberantemente se exprime a perversidade desta manipulação dos sentimentos de insegurança experimentado por largos sectores da população que perderam a esperança de melhorar as suas precárias condições de vida. A violência dos grupos neonazis em Charlottesville já foi reconhecida como um ato de terrorismo doméstico.  Os manifestantes empunhavam as bandeiras da Confederação – que, recorde-se, só pela derrota militar, há cento e cinquenta anos, se resignou à abolição do esclavagismo e da segregação racial – ao lado de estandartes da Alemanha Nazi e de uniformes da Ku Klux Klan. O pretexto da manifestação foi contrariar a deliberação legal e democrática, reconhecida pelas autoridades locais, de retirar de um jardim público um monumento que exaltava essa memória  de opressão e violência racista.

O que parece distinguir o terrorismo doméstico do terrorismo internacional não é a nacionalidade dos seus autores mas, sobretudo, “a sua raça” ou a religião por eles invocada. Com a eleição de Donald Trump foi arreada a bandeira da liberdade e da igualdade de oportunidades que permitiram à América sair vitoriosa da Guerra Fria. E continua a crescer a intolerância e a violência onde no passado se assumia com orgulho uma nação construída por imigrantes. A sociedade americana não se reconhece num Presidente que ao recusar a condenação dos organizadores da manifestação – movimentos de extrema direita que lhe deram apoio eleitoral – se torna cúmplice dos apelos ao ódio e à violência que redundaram na prática de um ato terrorista.

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