A democracia como ideologia[1] e o elogio da Política

Por Maria Carlos Oliveira

 

   «Os povos não têm mais do que o grau de liberdade que a sua audácia conquista ao medo.»

Stendhal

   «As pessoas livres, por vezes, não têm bem consciência da importância da liberdade: ela é qualquer coisa de natural, como o ar que se respira.» [2]

                                                   Mário Soares

 

               Elogio-da-Politica

O Elogio da Política é um pequeno livro, de 2009, que na estante aguardava uma oportunidade para ser aberto. O que descobri, porque os tempos tornam alguns títulos mais apelativos do que outros, foi um discurso claro, rigoroso e de leitura fácil, que combina, por exemplo, com a toalha de praia ou com um momento de evasão reflexiva, numa esplanada, nestes tempos de canícula em que os media exploram, para lá do razoável, um país em chamas, para grande gozo, suponho eu, dos pirómanos.

A propósito dos incêndios, seria importante questionar o efeito reprodutor da imitação e, sobretudo, a mediatização das democracias, de que este episódio é apenas mais um exemplo, e que Karl Popper defende, no que é secundado por Mário Soares, ser importante corrigir, urgentemente, porque «Ou as democracias conseguem controlar[3] as televisões ou as democracias passam a ser dirigidas pela televisão…»[4]. Estaremos a tempo, pergunto eu?

O Elogio da Política é um livro de análise, que persegue objetivos claramente pedagógicos, destinado a ser compreendido por todos, em particular pelos jovens que têm pela frente a tarefa, hercúlea, de construir um mundo humano e de trabalhar para continuar a garantir a habitabilidade de um planeta que continua a enviar-nos preocupantes sinais de alerta, acompanhados por outros que nos fazem acreditar que o combate e a persistência valem a pena.

O Elogio da Política é um livro escrito por uma figura, consensualmente, incontornável da democracia portuguesa, mas também onde se descobre o suor do investigador, do intelectual curioso e aberto à polifonia da realidade, intrínseco à sua famosa intuição. Descobre-se também o protagonista global, que não perde a noção do distanciamento que o rigor intelectual exige. É também um livro de passagem de testemunho, não tenho dúvidas, para os livres-pensadores e para todos os homens de boa vontade, que estejam dispostos a lutar pelas suas ideias e a debatê-las de forma pacífica e crítica.

O Elogio da Política é um livro que interpela os cidadãos e a condição, nunca adquirida, de o continuarem a ser e foi isso que sempre, como cidadã, anónima e crítica, sem qualquer laço pessoal ou partidário, respeitei em Mário Soares. É também um livro que ajuda a identificar falsos cisnes negros porque a História permite compreender que, na sua maioria, o inesperado e o imprevisível resultam apenas da nossa ignorância e/ou distração.

É um livro de um homem de escala humana, o que convém lembrar nestes tempos tão propensos à entronização de ídolos.

É um livro de um homem corajoso e determinado que, nos momentos decisivos da História, soube sempre escolher o lado certo, o que importa lembrar nestes tempos de discurso fácil e inconsequente das redes sociais, paradoxalmente, mais uniformizadoras do que geradoras de diversidade (!). «Está na moda dizer mal da política. E, por extensão, dos políticos e dos partidos. (…) Em democracia é fácil e, além disso, gratuito. Porque não tem consequências negativas pessoais para os críticos nem para os maldizentes, mesmo por sistema»[5], a menos que, acrescento eu, se esteja na disposição de vender a alma, como Fausto,  em troca de benefícios …

É um livro que nos lembra que «As dificuldades obrigam as pessoas a refletir e a pôr em causa coisas que tinham como certas»[6].

É um livro que mostra que «No fundo tudo está inter-relacionado. É preciso que os governos responsáveis o compreendam e procedam em conformidade. Somos todos seres humanos, livres e iguais. A consciência de que é assim e de que todos vivemos numa casa comum – a Terra – impõe-nos o dever de solidariedade, que nos une, independentemente das nossas diferentes opções políticas, sociais e religiosas»[7].

É um livro de esperança, onde se sente o bater do coração de um homem, genuinamente, livre: «A consciencialização da importância da Política (com P grande), defensora dos valores humanistas, das grandes causas, respeitadora das regras éticas, da justiça e ao serviço das pessoas, será a melhor alavanca para conseguir que o século XXI traga, finalmente, uma nova ordem mundial, de paz, de liberdade, da igualdade possível e do bem-estar para todos, no respeito pela natureza e pela dignidade de todos os seres humanos»[8].

É um livro que termina com um Oxalá assim seja.

Seremos capazes?

 

Maria Carlos Oliveira

[1] Assumida na seguinte aceção: «A democracia é, ela própria, uma ideologia. Ou seja: um sistema de ideias coerente para a organização do Estado e da sociedade», in SOARES, Mário (2009) – O Elogio da Política, Lisboa, Sextante Editora, p. 45.

[2]. Idem, ibidem, p.77

[3] Esclarece Mário Soares: «Note-se que quando se diz “controlar as televisões” não se está a querer pôr em causa um princípio, dos mais importantes em democracia, que é o da liberdade de imprensa e de opinião.» (p. 149)

[4] Idem, ibidem, p. 149.

[5] Idem, ibidem, p. 11.

[6] Idem, ibidem, p. 150

[7] Idem, ibidem, p. 152.

[8] Idem, ibidem, p. 152.

 

 

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