A Oeste, nada de novo, Mas…

Por Maria Carlos Oliveira

   O que perturba os espíritos lógicos mais que a incondicional lealdade dos membros dos movimentos totalitários e o apoio popular aos regimes totalitários é a indiscutível atração que esses movimentos exercem sobre a elite e não apenas sobre os elementos da ralé da sociedade. Seria realmente temerário atribuir à excentricidade artística ou ingenuidade escolástica o espantoso número de homens ilustres que são simpatizantes não filiados ou membros registados de partidos totalitários.[1]                                                        Hannah Arendt

 

A retórica epidíctica[2] de Trump não é para ler, é para ver, sob pena de se perder o essencial.

Descobri o vídeo do discurso – https://www.youtube.com/watch?v=YnQax8Vcfys – por mero acaso. O facto de aparecer em primeiro lugar evidenciava numerosos acessos, o emblema Tradutores de Direita, bem visível no canto superior direito, o subtítulo Discurso histórico de Donald Trump na Polônia, com o respetivo acento circunflexo, interpelaram-me e levaram-me a vê-lo.

O discurso de Trump, inicialmente, tinha-me parecido uma piada. Quando li a imprensa, apesar de ter notado um Trump diferente no modus operandi, mais contido nos tweets, o que me deixou preocupada, não percebi como a minha ignorância me tinha aprisionado na falaciosa dicotomia da “América cosmopolita” versus “América do buraco rural”[3].

O vídeo do discurso trouxe-me, de imediato, à memória o discurso de Hitler à Juventude Hitleriana – https://www.youtube.com/watch?v=up7YcyjI8kE -, que costumo desconstruir nas minhas aulas para distinguir a persuasão da manipulação, porque sempre assumi o combate do fascismo como permanente, pela sedução que costuma exercer sobre os adolescentes. Por outro lado, a entrevista de Aamir Mufti, A Europa como ideal fascista (Público, 9.07.2017), foi decisiva para começar a perceber melhor o que estava a acontecer diante dos meus olhos.

Não posso deixar de citar, com frequência, Aamir Mufti, porque, sem as suas chaves interpretativas, a grandiosidade do espetáculo transatlântico é inacessível a qualquer europeu que não domine as especificidades da realidade americana e os diversos códigos comunicativos que nela se cruzam.

Temos a tendência para nos agarramos a estereótipos e, de certa forma, a desvalorizar certos factos, próximos ou distantes, porque nos parecem improváveis ou mesmo irreais[4]. Um dos estereótipos, por exemplo, é pensar que as pessoas de extrema-direita são básicas, incultas, pouco sofisticadas e distantes de uma cultura cosmopolita. Mas a voz de Mufti lembra-nos que não “são pessoas que vivem nos bosques de forma primitiva, com armas e aos tiros. São esclarecidos, sabem de linguagem mediática, conhecem a tecnologia; muitos têm formação universitária, passaram por aulas como a minha onde pensamos estar a converter e a educar mentes ao ensinar pensamento progressivo. E estão a pensar no apuro pan-europeu”[5]. E o mais interessante é que a pesquisa histórica que realizei constitui um forte argumento a favor desta perceção de Mufti.

Não é por acaso que a propaganda sempre cresceu na razão inversa da robustez intelectual dos argumentos, porque “Sob um governo constitucional e havendo liberdade de opinião, os movimentos totalitários que lutam pelo poder podem usar o terror apenas até certo ponto e, como qualquer outro partido, necessitam de granjear aderentes e parecer plausíveis aos olhos de um público que ainda não está rigorosamente isolado de todas as outras fontes de informação”[6].

Comecemos pelo sentido de Europa. Que Europa é esta de que nos fala, com tanto entusiasmo e reverência, Donald Trump?

“Desde a chegada de Donald Trump, comecei a olhar mais do que alguma vez para a extrema-direita americana e a notar uma presença em massa de fascismo na América. Passa-se quase tudo de forma subterrânea, mas não escondida. No último ano, passei muito tempo a estudar este fenómeno e percebi que há uma espécie de abordagem europeia a este tema. Os americanos brancos são europeus, e os australianos e neozelandeses e canadianos e os radicais americanos de direita falam disso desse modo. Chamam-se a si mesmos europeus. Nunca tinha ouvido isto antes na América. Nem sequer dizem euro-americanos, dizem quase sempre «povo europeu»; «somos da Europa, construímos uma civilização europeia no continente americano e agora vêm estes e querem tirar-nos isso». É mais ao menos este o seu raciocínio”[7].

Mas, diz também A. Mufti, “Essa Europa pode existir na Nova Zelândia, na América do Norte, mesmo na Argentina. É uma ideia de como são os europeus, de onde vêm, quem são. (…) Muitos jovens irão aderir, está a tornar-se popular. E gera oposição. É a razão pela qual há um forte movimento antifascista entre muitos jovens, que se chamam a si antifa e aparecem em comícios de extrema-direita. Muitos membros da chamada geração millennial na América dedicam-se a combater o fascismo e os neonazis. Significa que sabem que há uma fatia da sua geração que está do outro lado. Os mais velhos não entendem isso.”[8]

A mensagem de Donald Trump começa a provocar-me a irritante impressão de info-excluída. É uma sensação que frequentemente me assalta quando visito catedrais e igrejas construídas num tempo em que a mensagem religiosa, para chegar ao povo iletrado, era iconográfica. Sinto que olho, por vezes emociono-me, mas há algo de profundo, como que um segredo bem guardado, que só se revela aos iniciados ou estudiosos.

Começo a procurar pensar numa lógica de propaganda. Interrogo-me sobre a escolha da Polónia. Para um europeu, a Polónia não é uma centralidade. A ignorância é de Donald Trump e respetivos guionistas/ideólogos ou minha?

Porque será a Polónia o cenário perfeito para a legitimação que, desesperadamente, Donald Trump procura reforçar e promover aos olhos dos americanos e também para um certo público à escala global? Porque serão os polacos um auditório privilegiado para intermediar o discurso de D. Trump entre as duas margens do Atlântico? Que mensagens serão os polacos capazes de compreender e que escapam aos europeus da Europa Ocidental?

Percebo que só a contextualização histórica poderá tornar compreensível o caloroso acolhimento e recetividade dos polacos ao discurso de Donald Trump.

O agradecimento pela recente aquisição de armamento, a tónica na importância da defesa e em particular das fronteiras, que se encontram sob a ameaça terrível da ideologia opressiva do extremismo islâmico, que americanos e polacos combatem, lado a lado, no Iraque e Afeganistão constituem sinais de partilha de um destino ou, pelo menos, de um caminho comum. As referências à Síria, ao Afeganistão, ao frutuoso encontro com a Arábia Saudita, que, talvez como a sua Europa, não seja bem islâmica nem extremista (!!), fazem-me rever a história.

A Polónia foi ocupada pela Alemanha nazi e pela União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. A guerra inicia-se com a invasão da Polónia, pelos nazis, em setembro de 1939. As duas potências ocupantes partilharam a hostilidade à existência de um estado soberano polaco, a repressão da sua cultura e o objetivo de a destruir. A Linha Oder-Neisse foi proposta pelas Potências Aliadas para traçar as fronteiras terrestres, quando perceberam a iminência da derrota da Alemanha Nazi, que acabaram por ser definitivamente acordadas, na Conferência de Postdam [17 de julho a 2 de agosto de 1945], por Estaline, Churchill[9] e Harry Truman.

Tony Judt chama a atenção para o profundo sofrimento do povo polaco, o que explica o papel de interlocutor privilegiado, como canal e não como destinatário, do espetáculo transatlântico.

“O «reaprisionamento» da Polónia por parte dos Soviéticos, juntamente com a convicção largamente difundida de que os judeus tinham visto com satisfação e até facilitado o estabelecimento do comunismo, turvou a recordação que o povo guardava da ocupação alemã. Em qualquer dos casos, o sofrimento dos próprios Polacos durante a guerra desviou a atenção do Holocausto dos judeus, e de certa forma opôs-se-lhe: o problema da «vitimização comparativa» iria inquinar as relações entre Polacos e judeus durante muitas décadas. A justaposição era sempre inadequada. Três milhões de Polacos (não judeus) morreram na Segunda Guerra Mundial; um número proporcionalmente mais baixo do que a taxa de mortalidade em algumas partes da Ucrânia ou entre os judeus, mas ainda assim impressionante.

(…) Antes de 1989, todos os anticomunistas tinham sido rotulados de «fascistas». Mas se o «antifascismo» fora apenas outra mentira comunista, era agora tentador encarar com simpatia ou até predileção todos os anticomunistas até então desacreditados, incluindo os fascistas. Escritores nacionalistas dos anos 30 voltaram, a estar na moda.

(…)Na Polónia, onde um Instituto da Memória Nacional recentemente estabelecido se esforçou por incentivar a investigação académica séria de temas históricos controversos, a contrição oficial pela forma como a Polónia tratou a minoria de judeus na sua população levantou sérias objeções. Estas foram tristemente exemplificadas na reação do Prémio Nobel da Paz e herói do Solidariedade, Lech Walesa, à publicação em 2000 do livro de Jan Tomasz Gross, intitulado Vizinhos, o estudo influente realizado por um historiador americano de um massacre, durante a guerra, de judeus pelos seus vizinhos polacos: «Gross», queixou-se Walesa numa entrevista na rádio, estava a tentar semear a discórdia entre Polacos e judeus. Era um «escritor medíocre… um judeu a tentar fazer dinheiro».”[10]

Em abril de 1985 os russos reconheceram que os 23 000 oficiais polacos assassinados na floresta de Katyn tinham na verdade sido mortos pela NKVD e não pela Wehrmacht.

Acrescente-se a dimensão religiosa da Polónia. Até neste aspeto, a Polónia e os polacos são o interlocutor perfeito para Trump, o que revela a excelência do canal comunicativo para eliminar o ruído da comunicação entre os dois lados do Atlântico. Por estas razões, Donald Trump não poupa nas palavras, nem no pathos.

A Polónia, que visitei há uns anos, foi o único país da Europa em que senti uma reverência religiosa que se propagava para além dos espaços sagrados. Com frequência, nas cidades e no campo, pessoas, novas e velhas, interpelavam membros do clero, alguns extremamente jovens, para, de corpo e cabeça fletidos, lhe beijarem a mão. Entrar numa igreja, durante o serviço religioso, mesmo para quem não possui formação religiosa ou crença, era uma experiência única. Não voltei a encontrar nada de semelhante, mesmo nos países islâmicos, nem mesmo no Irão [2015], país que Trump identifica como ameaça e onde, contra todas as minhas expectativas, encontrei o povo mais afável e acolhedor para um estrangeiro, apesar da notória falta de liberdade e rigidez persistente de códigos e da tímida liberalização em curso.

Do ponto de vista histórico, a avenida Jerusalém está associada a um momento dramático da Segunda Guerra Mundial, entre nazis e soviéticos, que Trump descreve de forma impressiva para mostrar que os polacos encarnam a missão de um povo, e só puderam fazê-lo porque nunca perderam o espírito. Os polacos querem Deus, um milhão não pediu riquezas, disse queremos Deus. Os polacos são um povo dedicado a Deus, são um vínculo transatlântico forte. A Polónia é uma nação líder, a Polónia sempre triunfará.

A Polónia teve um Pontífice, o Papa João Paulo II, cuja figura está associada à queda do regime comunista e à defesa de valores conservadores, nomeadamente no âmbito da sexualidade[11], um dos principais interditos em matéria religiosa. Muitos se recordarão da sua emblemática cruzada contra o uso do preservativo, condenando o seu uso, nomeadamente no périplo que fez por África, continente onde a SIDA matava a um ritmo assustador. Esta ortodoxia religiosa chocou muita gente, incluindo católicos praticantes, e não posso deixar de me lembrar do célebre cartoon[12] de António, que tanta polémica gerou.

Mas, parece haver algo mais nas referências ao Papa e à Avenida Jerusalém

“O simbolismo da ponte, como o que permite passar de uma margem para a outra, é um dos mais espalhados universalmente. (…) É muito interessante observar que o título de Pontifex, que outrora foi reservado ao imperador romano e agora continua  a ser o do Papa, significa construtor de pontes. O pontífice é ao mesmo tempo o construtor e a própria ponte, como mediador entre o céu e a terra.

(…)

Na descrição que o Apocalipse nos dá, Jerusalém simboliza a nova ordem de coisas que substituirá a do mundo atual no fim dos tempos. Significa, não o paraíso tradicional, mas, pelo contrário, o que ultrapassa qualquer tradição: um novo absoluto. (…) Eis aqui o tabernáculo de Deus entre os homens! Habitará com eles, serão o Seu povo e o próprio Deus estará com eles. Ele enxugará as lágrimas dos seus olhos; não haverá mais morte, nem pranto, nem gritos, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. Então, O que estava sentado no trono, disse: Eu renovo todas as coisas…Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim. (Apocalipse, 21, 1-6).” [13]

Que futuro deseja Donal Trump para o Ocidente? Que valores são esses que, na sua opinião, triunfarão? Por que razão, o Ocidente, que foi salvo com sangue, é digno de continuar a sê-lo? Porque encarna o povo polaco o espírito da Europa?

A resposta de Donald Trump é clara: a fé, a família, o libertarismo e a defesa do capitalismo laisser-faire.

No futuro de Donald Trump, sob a proteção e iluminação da fé, os papéis da mulher, dos seres humanos e do Estado estão bem definidos.

Donald Trump abre o discurso com um elogio e um agradecimento a Melania, que agradece os aplausos da multidão. Melania é promovida a melhor diplomata da América. Parece uma piada, mas ela encarna o modelo de mulher para a extrema-direita, machistas e marialvas. Bela, elegante, calada e submissa. No futuro de Trump não há lugar para a igualdade de género e as americanas foram as primeiras a percebê-lo e a mostrá-lo na Grande Marcha, que também me fez sair à rua.

No futuro de Trump, só há lugar para um tipo de família, a família tradicional, a família forte.

No futuro de Trump, o libertarismo é regra, o Estado é mínimo. O governo e a burocracia são ameaças. É fundamental eliminar qualquer autoridade, leia-se, qualquer regulação.

No futuro de Trump, o mundo é uma grande arena, em que as pessoas têm o poder e as Nações combatem, onde os brilhantes são recompensados. Não há lugar para os fracos. Os pobres atrapalham e por isso, como já o disse, o seu governo é formado por ricos, leia-se, por homens brilhantes!

Trump reitera Nós não vamos desistir!  

Quero acreditar que o outro NÓS, em que me vejo representada, também não, apesar do grande desafio que a construção de um OUTRO FUTURO exige e que Olivier Thomson tão bem sintetiza:

“Na segunda metade do século XX, esta ética essencialmente consumista, sedenta de glória e isenta de compaixão tem sido seguida, até certo ponto, também pelas mulheres, o último grande agrupamento a insistir na igualdade. Os homens decerto não têm o direito de se queixarem, mas os resultados poderão ser devastadores se as mulheres não aprenderem nada com o longo rol de loucuras masculinas.

Os códigos morais do futuro não devem cair na armadilha de sobre-motivarem os seus participantes, de os transformarem em fanáticos que possam vir a ser elitistas, intolerantes e até violentos na defesa do seu sistema de crença. (…) Já vimos a importância de não deixar que a componente estatal de um sistema moral se torne dominante; as sociedades em que o patriotismo e outras virtudes machistas sejam considerados mais importantes tendem a precipitar-se em crises e a prejudicar o sistema moral que pretendem proteger.

(…) O desafio para o século XXI está em construir um novo ethos de maturidade baseado em objetivos positivos e não negativos; um ethos que tenha em conta a crise que o planeta e a população enfrentam, um código edificado na compaixão e não somente no medo.”[14]

 

Maria Carlos Oliveira

[1] ARENDT, Hannah (2008) –A  Origem do Totalitarismo, Lisboa, D. Quixote, 3ªed., p. 432.

[2] “Nos discursos epidícticos, é necessário fazer o ouvinte pensar que partilha do elogio, ou ele próprio ou a sua família, ou o seu modo de vida, ou pelo menos algo deste tipo. Pois é verdade o que Sócrates afirma no seu discurso fúnebre: que não é difícil «louvar os Atenienses diante dos Atenienses, mas sim diante dos Lacedemónios».” [Aristóteles, Retórica, Imprensa-Nacional Casa da Moeda, Vol.III, 4ª ed., 2010, p. 283]

[3] “Pensamos na Califórnia como um paraíso anti-Trump, mas é o lugar onde nasceu o partido nazi americano, onde nasceram os Hells Angels, o sítio onde está  baseada a  maior instituição  que nega o Holocausto nazi, chama-se  Institute for Historical Review.” [Aamir Mufti]

[4] “Tenho colegas, gente brilhante, académicos, intelectuais, que se recusam a acreditar que isto é importante, alegam que sempre houve racistas brancos. Não é verdade, há uma coisa nova a emergir, também em muitos países da Europa. Esses grupos estão em contacto.” [Mufti, Ibidem]

[5] Mufti, Ibidem.

[6] Hannah Arendt, Ibidem, p.451.

[7] Mufti, Ibidem.

[8] Idem, Ibidem.

[9] Não deixa de ser curiosa a coincidência com o facto do Reino Unido ter acionado o artigo 50, abrindo um processo que, ao que parece, nem eles próprios entendem. Será que vão mesmo sair UE?

[10] JUDT, T. (2016) – Pós-Guerra: História da Europa desde 1945, Lisboa, Ed. 70, 3ªed., pp. 921-26.

[11] http://expresso.sapo.pt/actualidade/igreja-catolica-sem-doutrina-oficial-sobre-uso-do-preservativo=f503996

[12]  http://expresso.sapo.pt/actualidade/o-papa-ou-o-preservativo=f504223

[13] CHEVALIER, J; GHEERBRANT, A. (2010) – Dicionário dos Símbolos. Lisboa, Teorema, 2ª ed.

[14] THOMSON, O. (2010) – A História do Pecado, Lisboa, Guerra e Paz, pp. 352-53.

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