Macron o anti-Trump

Macron demarcou-se, durante a campanha, das visões nacionalistas da política internacional defendidas por Le Pen, Mélenchon e Fillon, nomeadamente, da complacência ou admiração que nutrem por Putin, que, inclusivamente, apoiou financeiramente e recebeu a candidata da extrema-direita. Macron pode vir a colocar a França como o país que articula uma política internacional de alternativa ao nacionalismo económico, à Islamofobia e ao unilateralismo militar de Trump.
Se há uma área política em que faz todo o sentido que Macron assuma a herança de Hollande é na política internacional, com uma exceção necessária no que respeita à política europeia.


Macron foi claro, na campanha eleitoral, na defesa de uma política internacional, na tradição de Hollande, defensor das Nações Unidas e do multilateralismo em oposição ao ceticismo de Trump, no Conselho de Segurança.
Hollande afirmou também a França como o principal ator europeu da segurança regional e mostrou-se disposto a não aceitar o nacionalismo de Putin, nem o seu belicismo, procurando, porém, não criar uma nova bipolaridade europeia.
A França de Hollande teve um sucesso indiscutível, com a organização da COP21, em Paris, marcado por um acordo para travar o aquecimento global (hoje ameaçado por Trump). A mesma França demonstrou ainda que é o país da União com vontade e capacidade para, quando necessário, usar a força militar – como o fez, e com sucesso, no Mali, para apoiar as forças armadas governamentais, para garantir a unidade do país ameaçado por grupos rebeldes jihadistas e touaregs, que tinham tomado o controlo do Norte do país.
A França de Hollande foi também um ator importante no acordo nuclear com o Irão, o grande sucesso diplomático da Administração Obama. Na Síria, a França foi o único país que continuou a apoiar a oposição contra o regime de Assad, embora sem grande sucesso.
As relações com os países do sul do Mediterrâneo são uma prioridade para Macron, como o mostrou a sua visita à Argélia em plena campanha eleitoral. A sua recusa da demagogia anti-imigração e a sua crítica da banalização da islamofobia, são condições favoráveis para uma nova política euro-mediterrânea, menos securitária, mais solidária e de inclusão. Num momento em que no Mediterrâneo continuam a morrer, na indiferença da União, os que fogem à guerra e à miséria, Macron terá de mostrar que é coerente com os valores que afirmou contra Le Pen e Fillon.
A União Europeia é hoje mais tema de política interna, nomeadamente nas áreas económicas e sociais, mas depende também da ação externa, dos seus Estados, das relações com os outros Estados da União Europeia e aqui Macron tem todas as razões para se querer demarcar da política tímida e ineficaz de Hollande.
Anuncia o novo Presidente a vontade de fazer avançar políticas europeias mais democráticas e solidárias, como a criação de um parlamento da zona euro e a mutualização da dívida pública dos Estados Membros. Para o sucesso de tais polícias, as relações com a Alemanha serão fulcrais, mas não se pode deixar ficar refém da vontade alemã.
Perante o unilateralismo de Trump os europeus têm de assumir responsabilidades reforçadas na segurança regional e no relançamento da política de segurança europeia, que está na ordem do dia, a relação com a Grã-Bretanha, mesmo depois do Brexit, é essencial.
Num momento em que o Presidente dos Estados Unidos é um risco real para a paz mundial, o novo Presidente francês é uma esperança. Esperamos seja capaz de impulsionar o regresso da União a uma ambição internacional, conforme aos seus valores fundadores.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: