Niilismo eleitoral

Álvaro Vasconcelos

O debate televisivo entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen foi a demonstração clara do risco mortal que a candidata da extrema-direita representa para a democracia. A sua violência verbal, as mentiras, o discurso do ódio racial, toda uma postura que fez reviver todas os fantasmas de um passado trágico europeu.


Em 2002, quando confrontados com a presença de Le Pen na segunda volta das eleições presidenciais, foram centenas de milhares os que saíram à rua, e Jacques Chirac acabou por ser reeleito com uma expressiva votação, recolhendo 82% dos votos.
Passados 15 anos, Marine Le Pen sucedeu ao pai, as sondagens dão-lhe cerca de 41% das intenções de voto, e o sentimento de revolta de 2002 desapareceu da sociedade francesa.Em seu lugar surgiu uma corrente do ‘ni-ni’ – nem Macron, nem Le Pen – sobretudo na esquerda dita soberanista. Recusando-se a indicar o sentido do seu voto, Mélenchon levou mais de 60% dos seus filiados a manifestarem, em referendo interno, a sua intenção de votar em branco ou de se absterem.
A mudança de posição resulta antes de tudo do suicídio político das correntes democráticas e europeístas, tanto à esquerda como à direita. Em 2002, o Partido Socialista era a força dominante à esquerda e a sua mobilização anti-Le Pen funcionou em pleno. Na direita, as correntes republicanas, então maioritárias, mobilizaram-se para apoiar Chirac.
Socialistas e Republicanos, nos últimos anos, cometeram um duplo suicídio, social e ético, que deixou o seu eleitorado vulnerável ao discurso nacionalista antieuropeu. Socialmente, deixaram-se dominar pelo discurso não há alternativa ao imperativo dos mercados, como aconteceu com a Presidência de  François Hollande. Hollande centrou o seu discurso eleitoral na superação da política de austeridade e na sua capacidade de conduzir, com a Alemanha, uma política de proteção dos perdedores da globalização e depois foi obrigado a ceder em toda a linha. Mas falta política e moral ainda talvez mais grave foi a incorporação do discurso securitário, anti-imigrantes e islamofóbico da Frente Nacional, como o fez o primeiro-ministro Manuel Valls, com o silêncio cúmplice de Hollande. Esse discurso secretário e islamofóbico seria retomado também pela campanha de Fillon. Os dois grandes partidos do sistema têm uma enorme responsabilidade na banalização do discurso da extrema-direita.
Os 20% de votos de Mélenchon na primeira volta, com um discurso com contornos paradoxais, por um lado nacionalista e ao mesmo tempo antirracista, sintetizam as alternativas radicais à política socialista dos últimos anos.
Macron aparece como o candidato que se demarca de Le Pen, mas também dos socialistas e dos republicanos, com um discurso coerente em defesa dos valores da República e das conquistas dos direitos das minorias dos últimos anos, mas ao mesmo tempo com uma perspetiva reformista sobre o mercado e a União Europeia.
O eleitorado de Fillon, por oposição à sua política de valores, e o de Mélenchon, por oposição à sua política social, tem muita dificuldade em votar Macron. Os de Fillon são tentados pelo voto na extrema-direita, com quem partilham o conservadorismo e os de Mélenchon são tentados pelo ‘ni-ni’ do seu líder.
O ‘ni-ni’ de Mélenchon deixa militantes e eleitores num vazio eleitoral e ético, incapazes de afirmarem as suas convicções democráticas e a defesa dos valores fundamentais, incapazes de pesarem na derrota da candidata da extrema-direita. O niilismo está presente numa espécie de fascínio pela destruição, possível com a vitória de le Pen, da ordem estabelecida.
O relativismo ético de Mélenchon é,também,evidente na sua posição sobre Putin e a guerra da Síria, em relação à qual se perde em teorias conspirativas antiamericanas e em considerações geopolíticas, nas quais os sírios e os seus direitos nada contam.
O que afasta Mélenchon do necessário projeto de reconstrução da esquerda democrática pró-europeia é o seu nacionalismo, que a esquerda francesa designava, até há pouco, de «soberanismo». Herdeiro de um pensamento de esquerda, Mélenchon é antirracista e defende uma França aberta no campo dos valores, mas uma França fechada ao projeto de superação dos nacionalismos que é a integração europeia.
O voto em Macron não é apenas um voto contra o perigo mortal que é Le Pen, o que já não é pouco. É também um voto positivo num candidato que defende os valores da revolução francesa, os valores que têm dividido a sociedade francesa desde a contrarreforma, passando pelo caso Dreyfus e por Vichy e que hoje se cristalizam na questão islâmica. Macron toma partido nesse debate, opondo-se ao projeto de Hollande de retirar a nacionalidade a binacionais que cometessem atos de terror e apoiou a política de Merkel de abertura aos refugiados.
Alguns justificam o seu niilismo eleitoral com o facto das propostas de política económica de Macron não porem em causa frontalmente as opções macroeconómicas dominantes. É uma questão pertinente, tanto mais que foi a convicção que os partidos do sistema não eram capazes de propor políticas alternativas que facilitou o crescimento da extrema-direita.
Como a experiência portuguesa mostra, no atual contexto europeu as possibilidades de levar a cabo uma política em frontal rutura com a política alemã é muito limitada. Isso mesmo aprendeu Macron durante a crise grega, quando era ministro da Economia. Varoufakis revelou recentemente que Hollande teria afastado Macron das negociações da divida grega por imposição de Merkel, por este ter dito que a chantagem à Grécia era um novo Tratado de Versalhes. A recusa de Macron de alinhar numa demagogia social eleitoralista, bem patente no debate,acompanhada pela sua defesa da Europa social deve ser valorizado.
No dia 7 de maio, a vitória de Macron será recebida com um enorme suspiro de alívio na Europa, mas seria um enorme erro desvalorizar o risco mortal que as correntes nacionalistas representam para a democracia na Europa. Se Marine Le Pen for derrotada, os políticos franceses terão 5 anos para recompor o seu sistema político, mas a todos os europeus compete, nesse mesmo tempo, encontrar formas eficazes de combater o nacionalismo.

Desenho de Plantu publicado pela revista L’Express, 1 de Maio de 2017. O caricaturista Plantu tem sido um critico feroz do ni ni de Mélenchon .

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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