França o destino Europeu

A três dias das decisivas eleições francesas,publico aqui o artigo que escrevi para o jornal  “Público ” nas vésperas da primeira volta. Hamon, Fillon e Mélenchon foram eliminados e a alternativa tornou-se muito clara. Os franceses vão decidir entre Macron e Le Pen , entre a tolerância e o racismo, entre a democracia liberal e o autoritarismo, entre a reforma do processo de integração europeia  e o nacionalismo .


Álvaro Vasconcelos
As eleições em França são vistas como decisivas para o futuro da União Europeia, porque a França é um «concentrado da Europa», das suas ambições e dos seus problemas. Todos aqueles que gostariam de ver o fim da União Europeia, nestas eleições, apostam, seja por atos de terror ou por campanha de desinformação, na vitória do medo e do nacionalismo antieuropeu.
O desencanto com a União Europeia, as angústias da sua classe média, fortemente atingida pela recessão de 2008, a procura da identidade perdida, as fraturas e os medos provocados pelos atos de terror estão presentes, de forma superlativa, em França, como estão, de forma mais ou menos grave, por toda a Europa e como estão, o que se comprovou com as eleições americanas, do outro lado do Atlântico. É a resposta a todas estas aflições que procuram os cidadãos franceses neste ato eleitoral, com a impaciência e a paixão próprias do país de 1789, da Comuna de Paris e do Maio de 68.
País de revoluções e não de reformas, França, que vai a votos para escolher o próximo Presidente, é hoje teatro de uma revolta eleitoral que corresponde a uma profunda insatisfação com o sistema político da V República, sistema que os cidadãos consideram esgotado e incapaz de responder às suas aspirações, tanto às razoáveis como às desmedidas.
Todos os candidatos à Presidência procuram apresentar-se como «antissistema», sistema que muitos identificam com a economia neoliberal e com a União Europeia que a defenderia, o que poria em causa as conquistas sociais da Frente Popular de 1936 e enfraqueceria, gravemente, o voto dos cidadãos. Tal sistema é visto como sendo representado por duas grandes correntes políticas: a socialista e a republicana, que, em alternância, direita-esquerda, governaram França desde o fim da II Guerra Mundial – o mandato de Giscard d’Estaing foi a exceção que confirmou a regra, não obstante não ter sido uma real alternativa política ao seu antecessor Pompidou.
Nestas eleições, nenhum dos candidatos quer ser identificado com o legado recente daqueles dois partidos (o socialista e o republicano), nem mesmo os que os representam, Hamon e Fillon.
Fillon rompe com a tradição gaulista do seu partido republicano, já profundamente abalada por Sarkozy, ao assumir o discurso populista, conservador, antissocial, securitário e «pós verdade» de Trump, contra a justiça e contra as elites mediáticas, estas que desvendaram as suspeitas dos seus atos de corrupção que alegadamente terá cometido, aquela que o inquiriu sobre os mesmos.
Hamon rompe com o legado neoliberal de Hollande e afirma querer reformar não só a França, como a União Europeia, para pôr termo à política de austeridade e salvar o sistema social francês, juntando-lhe uma nova conquista: a do salário universal.
Mélenchon apresenta-se como o candidato antissistema da esquerda social, pela diversidade, embora com um discurso nacionalista que pode pôr em causa a União Europeia, que quer refundar, e o euro, que gostaria de fazer circular com o franco.
Macron também se apresenta como um candidato antissistema, apesar do apoio que encontra nas elites culturais e económicas, com a ambição de criar uma nova força política centrista a partir do seu movimento «En Marche», e afirma-se como europeísta convicto, muito na linha dos presidentes do pós-guerra.
Marine Le Pen não só questiona o sistema, mas também o valor da tolerância, em nome de uma visão racista da laicidade, e preconiza de facto a saída da União Europeia.
Fillon, Mélenchon e Marine Le Pen têm em comum uma visão nacionalista de França, que os faz admirar Putin e a sua política na Síria, mas divergem profundamente nas questões de identidade, com Mélenchon a inscrever-se na tradição antirracista da esquerda francesa.
Macron e Hamon demarcam-se do nacionalismo e afirmam-se europeístas na tradição dos fundadores franceses das Comunidades Europeias, após a II Guerra Mundial. Divergem sobre o ritmo das reformas que a União deve levar a cabo para responder às preocupações sociais das vítimas da Nova Grande Depressão.
As clivagens entre os candidatos são reais e profundas e por isso o debate e o desenlace das eleições são tão decisivos.
É nas reformas para ultrapassar a crise da democracia participativa, que se reduz, na maioria dos casos, ao recurso ao instrumento do referendo que é, há muito, ferramenta utilizada pelos Presidentes franceses para afirmarem o seu poder, que são pouco ousadas as propostas de todos os candidatos.
A vitória de Hamon na segunda economia do euro traria um maior equilíbrio ao eixo franco-alemão e seria muito bem acolhida pelos países da Europa do Sul, mas as suas hipóteses de vitória parecem remotas. A vitória de Macron também seria, no atual cenário francês, uma boa notícia, sobretudo porque tem posições claras sobre o lugar da França no mundo, mas sobretudo por se opor à xenofobia, mormente a antimuçulmana, e defender uma perspetiva de Europa aberta e diversa, posição que partilha com Mélenchon e Hamon.
Hollande,com enormes insucessos na política interna,encarnou, como os seus antecessores ,a ambição de uma política internacional e de segurança eficaz, como o fez no Mali e na RDC e com reconhecido sucesso na cimeira de Paris do Ambiente. É um legado que pode ser posto em causa por estas eleições.
O país do General de Gaulle, com todas as suas contradições, é visto como o portador do ideal europeu. Porém, foi também em França que a União sofreu algumas das suas mais pesadas derrotas, primeiro logo em 1954 com o «não» à Comunidade Europeia de Defesa e depois em 2005, com o «não» ao Tratado Constitucional. O debate da eleição Presidencial de 2017 tem como questão central a regulação do mercado, no fundo uma continuação do debate do referendo de 2005, esperemos que com um resultado diferente.
Ao novo Presidente caberá enterrar o legado de Jean Monet ou confirmá-lo, mas para tanto terá de ser capaz de reformar o sistema político francês e responder ao enorme mal-estar que atravessa a sua cidadania.
Se os cidadãos franceses encontrarem, pelo seu voto, solução para os problemas reais e imaginários que os afetam encontrarão, de certa forma, resposta para os problemas da Europa.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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