Para onde vai a França?

Pedro Bacelar de Vasconcelos
Ainda que o pior cenário não se tenha concretizado, os resultados da primeira volta das eleições presidenciais francesa não oferecem o menor motivo de satisfação. Primeiro, porque o Front National passou à segunda volta. Segundo, porque o programa de Macron apenas promete a continuidade das mesmas políticas que têm alimentado o populismo e o crescimento da extrema de direita, que fomentam o ódio aos imigrantes e a indiferença perante o sofrimento humano, ameaçando seriamente o projeto da construção europeia. É este o assunto do texto que publiquei na edição de 27 de abril do Jornal de Notícias.

Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais francesas certamente aos mercados financeiros internacionais: no dia seguinte, as ações cotadas em bolsa subiram e os juros baixaram! O candidato independente Emmanuel Macron – que reclama estar acima da divisão política tradicional entre direita e esquerda – conquistou o primeiro lugar desta primeira etapa da corrida. Também Marine Le Pen tem bons motivos para ficar satisfeita. A candidata do partido da extrema direita que se propõe fechar as fronteiras, abandonar o Euro e negar asilo aos refugiados, também passou à segunda volta e – embora sejam muito escassas, felizmente, as probabilidades de vencer – tem a oportunidade de prosseguir na sua cruzada contra os imigrantes que indiscriminadamente qualifica como potenciais criminosos e de continuar a exigir medidas ainda mais musculadas para o combate aos terroristas internacionais que deliberadamente confunde com o islão.

Pelo contrário, aos socialistas franceses poderá estar reservado um destino semelhante ao dos socialistas gregos: a desagregação. O candidato socialista, vencedor das eleições primárias, obteve um resultado humilhante na primeira volta das presidenciais, abaixo dos 7%. À direita, François Fillon, encalhou nos escândalos por suspeita de favorecimento indevido da mulher e dos filhos e ficou também excluído da corrida, quase empatado com um dos candidatos da esquerda, Jean-Luc Mélenchon. Em consequência, nenhum dos dois principais partidos franceses – o PSF e Os Republicanos – estará representado na etapa final pela disputa da presidência que termina dentro de duas semanas.

Importa considerar que as eleições presidenciais em França não se limitam à designação do titular da chefia de Estado, como acontece em Portugal. O presidente francês é também o chefe do governo. Por isso, a pesada derrota do candidato socialista exprime também a decepção e o profundo desagrado dos eleitores com o governo de François Hollande que, prevendo uma avaliação francamente negativa da sua governação, nem sequer ousou recandidatar-se. Por isso mesmo, caso se venha confirmar a vitória esperada sobre Marine Le Pen, a 7 de maio, subsiste uma grave incógnita que só terá resposta depois das eleições legislativas de junho: que forças políticas estarão representadas na próxima Assembleia Nacional? Qual será o respetivo peso político? Como irá Macron governar a França sem um partido que suporte o seu programa de governo? Que maioria conseguirá congregar em torno das suas propostas que, como sabemos, mereceram a preferência de apenas 23% dos eleitores ?

Macron foi ministro da economia do governo socialista de Hollande e demitiu-se em virtude da forte contestação que suscitou. Por isso criou um movimento – En Marche – para se candidatar agora como independente e distanciar-se da sombra do governo atual. Entre as políticas que Macron aplicou no governo de Hollande, as reformas estruturais que a troika e o governo PSD/CDS nos impuseram ao longo dos negros anos do resgate financeiro e o programa de reformas económicas que Macron agora apresenta, não encontramos nenhuma diferença substancial. Por outro lado, em matéria política internacional, sabemos que aprovou a exibição de violência gratuita de Donald Trump sobre o território sírio e ficou indiferente à violação do Direito Internacional. Chegamos assim à conclusão fruste de que o contributo da vitória de Macron para a mudança de rumo de que a Europa está tão carecida, será muito modesto e sempre a reboque de atores mais fortes, como a Alemanha, ou mais ousados, como o governo de António Costa.

Os demónios libertados pelas vitórias do Brexit e de Trump não conseguiram até agora contaminar o continente europeu. Esperemos que as eleições alemãs possam transportar sinais mais prometedores. Entretanto, acreditamos que Macron vai conseguir esconjurar, a 7 de maio, o pesadelo fascista de Marinne Le Pen.

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