Lição das eleições holandesas

Pedro Bacelar de Vasconcelos

A melhor surpresa das eleições holandesas foi o resultado obtido pelo partido da Esquerda Verde que elegeu mais 12 deputados para o parlamento. Em contrapartida, o pior resultado coube aos partidos da coligação de governo que perderam em conjunto metade dos deputados que tinham conseguido eleger nas últimas eleições! E verdadeiramente dramática é a situação do outro membro da coligação de governo, o 684x384_360576Partido Trabalhista. a que pertence aquele famoso Ministro das Finanças que ainda preside ao Eurogrupo, que se notabilizou como empenhado militante das políticas de austeridade e tudo fez para expulsar a Grécia da União Monetária. O seu partido sofreu uma derrota humilhante e ficou reduzido a uma representação parlamentar residual. Neste cenário, o Partido Liberal a que pertence o atual primeiro-ministro, apesar das significativas perdas que sofreu, segurou a posição de partido mais votado e remeteu a extrema-direita do fascista Geert Wilders – que algumas sondagens chegaram a dar por vencedor – para o segundo lugar.

É verdade que estes resultados desmentem o temido efeito de contágio das eleições europeias pela vitória do Brexit, na Inglaterra, e pela eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos. Não revelam porém qualquer avanço significativo no combate ao populismo da direita que se transfere e sobrevive nos partidos institucionais do centro e da direita. Por outro lado, a pesada derrota dos trabalhistas holandeses veio mais uma vez demonstrar o elevado custo das concessões oportunistas, em nome do chamado realismo político, em matérias de valores e de princípios.

Decorridos setenta anos sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, os fantasmas do ódio aos estrangeiros, do racismo e da intolerância religiosa voltam a assolar os povos da Europa e marcam presença em todos os atos eleitorais do ano corrente. Geert Wilders não foi o principal derrotado da noite eleitoral porque conseguiu introduzir como temas dominantes da campanha os preconceitos religiosos, as restrições à entrada de emigrantes, as políticas identitárias e as pulsões xenófobas. A recente expulsão da Holanda de membros do governo da

Turquia, além de grosseira violação das regras diplomáticas e do direito internacional, é a expressão mais flagrante e caricata da subserviência do governo holandês perante a xenofobia da extrema-direita de que arduamente se distingue.

São os populistas da direita, mais ou menos radical, que constituem a verdadeira ameaça ao projeto de paz e de solidariedade que a Europa ainda continua a representar. São eles que acusam a União de minar a soberania dos estados, de escancarar as fronteiras nacionais à imigração e de expor as populações indefesas à violência terrorista. Não entendem que o crescimento inevitável da diversidade cultural nas sociedades contemporâneas nos vai continuar a enriquecer e a transformar… e que não há regresso possível ao calor do estrume e à solidariedade do sangue.

O populismo não é uma tendência, uma doutrina, uma ideologia. Não designa sequer uma política. É um juízo que se aplica a quaisquer declarações que apenas pretendam satisfazer as preferências do auditório, sem respeito pela inteligência de quem ouve nem a mínima preocupação quanto à coerência do que se diz ou quanto à viabilidade do que se promete.

A denúncia dos “populismos de esquerda ou de direita” – expressão que hoje se tornou vulgar no discurso político – não reflete mais do que a pretensão paradoxal de confinar a democracia e toda a pluralidade política às virtudes do centro. Foi o centro que renunciou à procura de soluções alternativas para as políticas de austeridade e que pregou a resignação à ortodoxia do pacto orçamental. Foi ao centro que se afunilou o campo das opções políticas. Foi do centro que nasceram os populismos agora tão deplorados. Os governos que se renderam à omnipotência da vontade anónima dos “mercados financeiros” e que sempre se desculparam de todos os seus desaires com a autoridade de Bruxelas, são eles os principais responsáveis pelo crescimento do populismo neofascista e eurocético.

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