E se a democracia for a principal responsável pela criação das condições que estão a favorecer os populismos?

Por Maria Carlos Oliveira

No último encontro do Fórum Demos (3.03.2017), constatou-se haver uma enorme dificuldade em identificar as razões subjacentes ao fenómeno populis
ta. As diversas hipóteses iam esbarrando com a proliferação do fenómeno em sociedades com caraterísticas diferentes, nomeadamente ao nível do bem-estar dos cidadãos, do impacto das migrações ou da segurança. Por que razão estarão então sociedades diferentes a produzir respostas tão idênticas?

O fenómeno populista parece ter uma forte componente emocional, o que lhe confere um grau de imprevisibilidade acrescido num tempo em que as tecnologias permitem uma propagação viral da informação/desinformação. A esta acelemarine-le-pen-geert-wilders-frauke-petry-far-right-populist-europe-elections-cartoonração acresce a propagação, ao que parece mais eficaz, das más notícias que, frequentemente, contribuem para uma amplificação, injustificada, da perceção de risco.

O livro de Tzvetan Todorov, recentemente editado pelas edições 70, mas cuja edição original é de 2012, Os Inimigos Íntimos Da Democracia, lança algumas pistas interessantes e, para mim, novas. E se a democracia for a principal responsável pela criação das condições que estão a favorecer os populismos?

Como sempre entendi a democracia como ágora, como espaço de debate na procura permanente do bem comum, uma vez que entendo, como Todorov, que “O liberalismo encoraja o desenvolvimento pessoal, mas não propõe um novo ideal comum” (p. 56), nunca considerei a possibilidade de a democracia poder afirmar-se como uma forma de messianismo, como uma forma de impor bem (?). Esclarece Todorov que “Após a queda do império comunista na Europa, nos anos 1989-1991, assiste-se a uma terceira forma de messianismo político – que é a primeira a corresponder às democracias modernas. Em muitos aspetos, opõe-se aos projetos totalitários que a precederam, mas conserva semelhanças com a primeira vaga, a das guerras revolucionárias e coloniais. Esta política consiste em impor o regime democrático e os direitos humanos pela força – um movimento que, porém engendra uma ameaça interna para os próprios países democráticos. ” (p.57)

A propósito da guerra do Iraque (a que sempre me opus) e da regulamentação minuciosa da tortura (que não aceito em nenhuma circunstância) feita pela CIA em 2009, Todorov defende que “Um Estado que legaliza a tortura já não é uma democracia” (p.64). No entanto, em nome da segurança e da preservação dos valores (?), os cidadãos ocidentais estão cada vez mais predispostos a tolerar o intolerável, atribuindo ao outro o que parece vir, fundamentalmente, de dentro. E continua Todorov, retratando com pertinência os tempos que vivemos, “Os valores democráticos, propalados pelos países ocidentais como razão da intervenção, foram vistos pelas populações de outros países como camuflagem confortável para intenções inconfessáveis. A sua erosão, efeito de um impulso messiânico para a perfeição, pode ser também vista fora das situações de guerra. O desejo de escapar a qualquer risco para a nossa saúde pode conduzir a um otimismo sanitário preventivo; o de se afastar qualquer risco social, de levar a cabo uma política de exclusão em relação aos que podem provocar potenciais problemas. Uma das maiores ameaças que pesam sobre as nossas democracias, escreveu o juiz Serge Portelli, «é a de uma sociedade de segurança absoluta, de tolerância zero, de prevenção radical, de prisão preventiva, de suspeita sistemática em relação ao estrangeiro, de vigilância e de controlo generalizados». É assim que nos tornamos o nosso pior inimigo, e um dos piores de todos.” (p. 65)

O populismo é, de facto, um exemplo de como podemos tornar-nos o nosso principal inimigo. A sua força parece residir numa retórica que mobiliza o medo e a esperança de voltar a um passado seguro e organizado (?), como se a História se deixasse conduzir pela vontade de um grupo ou pudesse ser comandada a partir do Twitter!

É necessário e urgente apresentar, com a maior clareza e objetividade possível, os efeitos nefastos do regresso ao passado, mobilizando o logos, mas também o pathos, para a compreensão de uma realidade complexa e em transição para um novo paradigma. Quanto custará, por exemplo, em termos de bem-estar, no sentido lato da palavra, o fim da União Europeia? Que União queremos construir para viver os tempos da globalização. Que valores comuns poderão ser acordados para permitir a inclusão e a convivência inevitável (que considero desejável) com a diversidade? Convém lembrar que a Europa não pode, não tem condições para prescindir da imigração, mesmo que por hipótese académica se admitisse que tal fosse benéfico?

Assim, pensar o futuro da democracia parece exigir uma reflexão crítica sobre a democracia e, simultaneamente, o envolvimento dos países/cidadãos na discussão do futuro da Europa, tomando consciência do que nos deu, do que nos fez perder, assim como da sua relevância no contexto da globalização. A Europa ainda é o melhor continente do mundo para se viver, mas, até quando?

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