Wishful thinking: o perigo que nos ameaça

Álvaro Vasconcelos

Quando perante um grande perigo, é normal que a maioria dos seres humanos, políticos ou não, anseie por que ele não se concretize. Na língua inglesa, essa atitude traduz-se na expressão wishful thinking, que significa, segundo o dicionário Merriam Webster, “crer que é real aquilo que se deseja que seja verdade”, aquilo em queDonald-Trump-signature se quer acreditar, ou, na expressão mais popular, tomar os nossos desejos por realidade. Os exemplos históricos são numerosos e talvez o mais famoso seja o do primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, que em 1938 assinou o Acordo de Munique com Hitler e afirmou que haveria “paz no nosso tempo”. Estávamos a dois anos da maior tragédia da história europeia.

Temo que o wishful thinking domine agora a reação à vaga de neonacionalismo populista que atravessa a Europa e os Estados Unidos. Os europeus que acreditam na Europa olham com enorme preocupação para as eleições na Holanda, na França, e mesmo na Alemanha, mostrando-se predispostos a aceitar uma votação significativa na extrema-direita, desde que não ganhe as eleições, na esperança que o populismo seja um fenómeno transitório.

Nos últimos dias, temos ouvido muitos suspiros de alívio: Trump afinal não seria Trump e que a prova estaria no discurso no Congresso de 28 de fevereiro de 2017.

E Trump não seria Trump porque fez um discurso repleto dos lugares comuns dos políticos americanos, sem improvisos, dito num tom menos violento, e até encontrou tempo para condenar ataques racistas contra negros e judeus e afirmar que estava ali para transmitir uma mensagem de unidade. Mesmo se essas condenações são contraditórias com as insinuações presentes em tweets do dia anterior, de que os ataques antissemitas poderiam ser obra dos seus inimigos políticos, o discurso merece ser analisado porque no essencial, no que não é retórica, é coerente com a sua campanha.

Os que respiraram de alivio devem ter só ouvido os dois primeiros parágrafos ou então estavam à espera que na sua primeira apresentação no Congresso Trump fosse anunciar as medidas que iria tomar para silenciar a CNN e o New York Times, declarar guerra à China ou ao Irão, voltar a insultar o presidente do México, o primeiro-ministro da Austrália ou Angela Merkel.

A realidade não é assim tão linear. Donald Trump está numa posição extremamente difícil, com os mais baixos índices de aprovação da história americana para um Presidente recém-eleito. Segundo o Barómetro da Gallup, tendo por referência a data do primeiro discurso no Congresso, só 42% dos americanos aprova a sua ação, um valor que, no caso de Obama, se situava nos 64%.

Trump precisa do apoio do Congresso para governar e por isso teve que baixar o tom do discurso, mantendo a mesma política xenófoba. Uma leitura atenta do discurso mostra que está lá tudo: a sua política social retrógrada, com os ataques ao Obamacare, a proposta de baixar os impostos dos mais ricos, e sobretudo a ideologia populista neonacionalista, com a reafirmação da  construção do muro aos ataques à China, a retórica protecionista e o anúncio do aumento significativo das despesas militares  Acima de tudo, o discurso exprime o mesmo ódio populista e racista contra os imigrantes e a amálgama entre crime e imigração, característica de todo o discurso da extrema-direita xenófoba.

No discurso, Trump anunciou a criação de uma nova organização a que chamou Voice – Victims Of Immigration Crime Engagement (Apoio às vitimas de crimes cometidos por imigrantes). Presentes no Congresso estavam três viúvas cujos maridos teriam sido assassinados por imigrantes, e Trump aproveitou para descrever as circunstâncias dos crimes a uma audiência de 47 milhões de telespetadores, o que contribuiu fortemente para estigmatizar os imigrantes.

Os ataques, já depois do discurso, contra o Presidente Obama, acusando-o, sem qualquer tipo de provas, de espiar as suas conversas, são a prova de que não abandonou a calúnia como arma para desviar a atenção dos seus problemas – neste caso as ligações com Putin durante a campanha eleitoral. Lembremo-nos que Trump foi o principal propagador do boato que Obama não era americano.

Continuo a pensar que a melhor forma de travar Trump, de impedir que seja Trump, é a mobilização cívica contra as suas políticas de ataque aos direitos políticos e sociais dos habitantes dos Estados Unidos, seja qual for a sua origem e não ficar à espera que faça um qualquer ato de contrição. O silêncio dos democratas no Congresso, a sua recusa em aplaudir o Presidente, mostra que estão conscientes dos perigos que corre a América, que ouviram a enorme mobilização cívica das manifestações, nomeadamente contra as medidas islamofóbicas. Trump vai voltar a tentar aplicar a ordem executiva contra nacionais de países com maioria de população muçulmana, mantendo a monstruosidade da descriminação baseada na religião, mas despida agora de algumas das disposições que levaram os tribunais a considerarem-na ilegal.

Em Portugal e um pouco por toda a Europa muitos continuam à procura de qualquer indicio que satisfaça a sua vontade de acreditar, o seu wishful thinking. Não seria do mais elementar bom senso procurar enfrentar os problemas que levam muitos europeus a apoiar os populistas? Não seria  altura de pensar seriamente como voltar a conquistar os cidadãos para o projeto europeu?

Por mais paradoxal que possa parecer, é à sociedade civil americana que temos que ir buscar a inspiração necessária para o combate que teremos que travar nos anos que se aproximam, se queremos que a Europa da integração e da democracia que é a nossa não pereça.

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