Acerca da necessidade da utopia ecológica e democrática

desert-663053_1920Maria Carlos Oliveira[1]

O Estado foi uma entidade que foi ganhando contornos precisos ao longo da modernidade, consolidando-se em alguns casos tardiamente, cuja afirmação de soberania determinou o conceito de independência nacional que se vê hoje aniquilado pela globalização económica. As decisões económicas superam a vontade de cada estado individual e criam relações de interdependência que escapam a qualquer controle estrito que se pretenda desencadear a partir do interior das fronteiras de cada país dado o enorme poder das multinacionais a que se associam outros aspetos, também eles decisivos. Pode-se assim sublinhar a relevância do desvinculamento do capital dos meios de produção, em consequência do investimento no setor de serviços e comunicação associados a uma expansão do peso da especulação financeira, à custa da produção inovadora, que se traduz numa grande mobilidade de capitais que torna as economias hipernervosas e sensíveis a fatores que escapam a uma decisão reivindicativa direta dos trabalhadores. Por se turno, os trabalhadores veem-se confrontados com um agravamento das desigualdades sociais, em consequência da degradação progressiva do Estado Providência, que é acompanhada pela emergência de uma classe de novos-ricos que constituem a ostentação em essência da sua existência numa sociedade cada vez mais mediatizada.


Na sequência da desagregação da ordem industrial imposta pelo capitalismo financeiro que suprime os antigos mecanismos de produção, assiste-se ao desaparecimento das classes no seu sentido tradicional e à emergência de um conceito de mão de obra versátil com o objetivo de responder aos desafios cognitivos de uma sociedade de informação, a que poucos conseguem corresponder. Para além destes desafios, os trabalhadores sofrem também a pressão das fusões de grandes empresas que atiram para o desemprego uma enorme quantidade de trabalhadores e ainda a concorrência da mão de obra barata e não especializada dos países periféricos e semiperiféricos a dois níveis, a saber, pelos seus baixos custos e frequente desvinculamento de quaisquer direitos e regalias sociais, atraem a fixação de empresas que encerram as suas portas nos países ricos; a sua mobilidade, com a deslocação de equipas de trabalho de zonas periféricas e semiperiféricas, contribui para agravar a precariedade de emprego e agravar conflitos entre nacionais e imigrantes. Esta nova fonte de trabalho, inesgotável e pouco exigente, associada à pressão tecnológica que tende a substituir o homem pela máquina, de acordo com uma lógica de lucro, retiram força reivindicativa, instalam uma cultura de silêncio em consequência do medo do desemprego e contribuem para o desenvolvimento de uma sociedade pouco solidária e acrítica.
A diluição do conceito de classe tradicional é acompanhada pelo desmoronamento da rígida hierarquia que caraterizou os modelos capitalistas anteriores. Após a Segunda Guerra Mundial as classes não desapareceram, a tradição aristocrática foi suplantada por uma burguesia que preservava o sentido de classe na medida em que continua a ser “una  fuerza social dotada de un sentido próprio de su identidade colectiva, unos códigos morales  y un habitus cultural craterísticos”[2], que possibilitam a emergência de contra-poderes críticos e criativos, que fizeram das vanguardas uma expressão maior da modernidade (…).
A radicalidade do capitalismo financeiro não se esgotou nas mudanças referidas e atingiu o âmago da organização política ao manter uma relação paradoxal com a democracia. Se por um lado a democracia passa a constituir um dos critérios que presidem aos empréstimos económicos, a sua vivência encontra-se completamente desvirtuada nos países ricos, para já não falar da situação dos países periféricos, em consequência de uma menor participação dos cidadãos e perda de influência dos parlamentos, o que parece demonstrar a existência de um padrão de comportamento histórico: “se atentarmos na história europeia desde  meados do século XIX, verificamos que a democracia e o liberalismo económico foram sempre má companhia um para o outro. Quando o liberalismo económico prosperou a democracia sofreu e vice-versa”[3]. Esta tese parece ser confirmada pelo guru do neoliberalismo, Milton Friedman, que defende na sua obra Capitalism and Freedom, “que a obtenção do lucro é a essência da democracia, qualquer governo que conduza políticas contra o mercado está a comportar-se de forma antidemocrática, sendo irrelevante o apoio que goze por parte de uma população esclarecida”[4]. (…)
As armas do pensamento crítico que dinamizaram a modernidade transformaram-se em “pistolas de sabão” que, “como a de Woody Allen, se derretem à chuva quando com elas pretendemos forçar a nossa fuga da prisão”[5], a crítica perdeu o seu perfil de resistência como lucidamente capta D. Inerarity (1995) ainda que, paradoxalmente, tenhamos que admitir com Albert Hirschman que, “o capitalismo não pode ser criticado por ser repressivo, alienante e unidimensional em contraste com os seus princípios fundamentais porque, ao contrário, o capitalismo realizou precisamente o que se esperava dele, ou seja, reprimir a variedade humana e produzir uma personalidade humana menos multifacetada, menos imprevisível e mais unidimensional” [6]. Parece assim que o capitalismo criou uma inércia duradoura à mudança, que se alimenta dos seus subprodutos – uma cidadania despolitizada e apática que permitiu a substituição de cidadãos por consumidores (Chomsky, 2000) – numa pós-modernidade que convida a atitudes niilistas e se define pela ausência de adversário e competitividade desenfreada, não conseguindo consequentemente escapar a adjetivos como monocromática (a nível político), indiferente (em vez de tolerante), acrítica, narcisista, egoísta, vulgar, fútil, permissiva (no sentido em que se assiste ao crepúsculo do dever e tudo parece ser aceitável), inculta, consumista, volúvel, sensacionalista… (…)
Os sintomas de que é necessário mudar são óbvios, ainda que se ignore que rumo a tomar, por isso precisamos, como defende B. S. Santos (1999,43) num gesto insubmisso, de utopias como de pão para a boca dado que, tal como “dizia Walter Benjamin, a crise, a verdadeira crise, é continuar tudo como está”. E o autor não fica pela afirmação da necessidade, defendendo que a única utopia realista neste final de século é a utopia ecológica e democrática” (…).

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[1] – O texto apresentado integra a tese de doutoramento – Heranças e Consequências de Uma Racionalidade Mínima: Pela mão da razão em direção a uma ética ecológica, pp. 196-202)- desenvolvida com o apoio da JNICT e apresentada na Universidade de Salamanca em 2001.
[2] ANDERSON, Perry (2000) – Los Orígenes da la Posmodernidad, Barcelona: Anagrama, p.128
[3][3] SANTOS,B.S. (1999) – Pela mão de Alice. O Social e o Político na Pós-Modernidade, Porto: Afrontamento,7ªEd., p.23.
[4] CHOMSKY, N. (2000) – Neoliberalismo e Ordem Global, Lisboa: Ed. Notícias, p.9.
[5] SANTOS,B.S. (1999), p. 92.
[6] SANTOS,B.S. (1999), p. 92.

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