Uma borboleta na ponte de Babel

Uma borboleta na ponte de Babel

“Many have the feeling that the world has been turned upside down”, Angela Merkel at the CDU’s annual party conference in December 16.
“For last year’s words belong to last year’s language” T.S. Eliot, Little Gidding, 1939
 “La prueba mas acabada que somos unos animales de la peor especie es siempre olvidarnos de ello” Alvaro García de Zúñiga, Manuel, 2014

Desde que se aprendeu a controlar o fogo que se anda, literalmente, a brincar com ele. E o fogo é uma bela imagem, tanto pelo seu poder de destruição como pelo papel decisivo que teve na evolução do Homem. Todas as contas feitas, e fissão nuclear pelo caminho, a História do Homem é a História da invenção de armas de (auto)destruição maciça. Hoje é com a inteligência artificial que temos de aprender a viver. E, tal como no passado a espécie não se deixou destruir pelos seus brinquedos, podemos supor que nesta nova etapa saberemos encontrar soluções para reinventar mais uma vez o mundo. O nosso, claro.

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Fala-se muito na celeridade dos dias de hoje, mas o facto é que estamos mergulhados num período de transição que começou há décadas e não parece ainda ter-nos conduzido a um qualquer destino. Com efeito é difícil aceitar que o atual estado de coisas, caracterizado, em grande medida, pela incapacidade institucional e política de oferecer respostas satisfatórias aos cidadãos, seja um estado “normal”.

Independentemente disso, muita coisa corre bem, a ciência oferece-nos horizontes de esperança quase inimagináveis, a arte está, como nunca se calhar, presente nas nossas vidas – a tal ponto em que podemos sonhar com a possibilidade de sermos todos artistas –, a “riqueza” – embora este termo careça de alguma precisão – objetivamente cresce à escala global, e em cada vez mais países, sistemas sociais, de segurança, saúde, educação, pese embora a nossa impaciência, existem e um crescente número beneficia deles.

Simultaneamente nunca como antes fomos consciente dos riscos globais. De que os riscos são, precisamente, globais, como o bater de asas de uma borboleta. Este facto é, a meu ver, sintoma de que existe hoje uma cultura da globalização, a acrescer às culturas locais, regionais e nacionais, que precisa encontrar os seus códigos próprios, e que, de forma mais ou menos traumática, irá, provavelmente, acabar por encontrá-los.

A tarefa que importa é perceber como contribuir para essa nova linguagem do mundo, integrando as linguagens existentes – pois todas elas são tão necessárias como a biodiversidade no planeta – de forma a que não se crie um hiato de incompreensão entre umas e outras; mais, a questão é saber agora como conter e colmatar o hiato que se tem cavado, em múltiplos casos, e que corresponde a uma tentação de reerguer muros e fronteiras, numa altura em que a ciência, a tecnologia, a arte e a cultura, tornam uns e outras obsoletos. Mas o hiato vai-se se cavando porque as instituições nacionais e internacionais, os sistemas políticos e de regulação, não têm conseguido acompanhar a extraordinária mudança cultural e tecnológica que se tem desenrolado perante os nossos olhos. Existe uma rede, que de forma redutora podemos designar por “interesses instalados” ou “status quo”, que vai enredando a capacidade de transformação institucional – que, de pela sua natureza, é já reduzida – e comprometendo a independência de ação e até de reflexão, das estruturas partidárias e dos governos.

Desde a crise do Lehmann Brothers que é patente a incapacidade persistente tanto a nível nacional como internacional de combater esses interesses instalados e de defender o interesse comum. Com certeza que ambos são interdependentes mas há um desiquilíbrio crescente que coloca em risco todo o edifício social ao atingir as suas bases de forma objetiva, ao minar a solidariedade, entre gerações, entre países, entre mecanismos de enriquecimento a nível global e redistribuição a nível local, e de forma simbólica, através do descrédito das instituições.

Este problema simbólico merece toda a nossa atenção porque é através das instituições que conseguimos agir de forma concertada, eficiente, regulada e democrática sobre a realidade. Mas o ponto é que a própria realidade está em causa. A linguagem parece ter perdido a sua âncora no real. Falamos em “pós-verdade”. Há uma enorme confusão ideológica e os direitos humanos, a grande conquista ocidental do século XX, esboroam um pouco por toda a parte por motivos fúteis. Há o sentimento de que “o mundo está de pernas para o ar” como comentava Angela Merkel. T. S. Eliot descreve um sentimento semelhante, quando diz que “as palavras do ano passado, pertencem ao idioma do ano passado”, isto, em 1939, no dealbar da segunda guerra, expressava a impotência de quem viveu entre deux guerres, e este período de guerras, durante a primeira metade do século XX, foi de tal modo arrasador que naturalmente teve de surgir uma nova linguagem, uma nova definição do homem e da forma de estar no planeta que está hoje, de novo, em causa.

A dimensão dos desafios de hoje é extrema, pois o que está em jogo é também o próprio ecossistema que nos acolhe, tal como o conhecemos. Este acréscimo de incerteza, causa uma multitude de reações muitas delas contraditórias entre si. Todos pressentem que nestas profundas transformações muitos, porventura a maior parte, têm muito a perder. As grandes transições fizeram-se – provavelmente sempre – por cima de muitos cadáveres. Este temor ancestral gera uma certa irracionalidade que se sente no ar, entre a fuga para a frente e a recusa dos factos, da ciência ou da “realidade”.

Seria necessária uma mobilização profunda e inclusiva capaz de demonstrar que é possível um desenvolvimento humano, social e económico, que não gere exclusão. Isto à escala global, desejavelmente, mas nós, europeus, para que esse adjetivo signifique alguma coisa, deveríamos poder começar pela Europa onde existe capacidade cultural e tecnológica para obrar e replicar um modelo de sociedade capaz de sustentar algo de parecido com um novo Renascimento.

Se o Renascimento foi marcado pela invenção da máquina de imprimir, a de hoje é sem dúvida a digital. Já se falou num novo plano Marshall para a Europa. Poderia ser uma forma de cumprir a revolução digital sem que fosse preciso um nível terminal de destruição prévio. O digital atinge todas as áreas de atividade humana, mas é agora que está prestes a dar um salto gigantesco com impactos decisivos na própria noção de humanidade. Se esta ferramenta, através da desmaterialização das comunicações, conduziu à interconectividade de hoje, e à transformação radical do trabalho e da produção de riqueza, se é a tecnologia responsável pelo desemprego de hoje e pela redistribuição deficitária da riqueza, é também o único instrumento capaz de ajudar a debelar a complexidade que significa trazer sustentabilidade à convivência de tantos humanos num mesmo planeta, desde a gestão inteligente de redes de distribuição de energia ou de água, para falar de bens absolutamente essenciais, à reinvenção da Democracia e da Cidadania, ao sentimento de pertença global, em última análise, salvaguarda da vida humana na Terra.

As instituições herdadas do séc. XX, deixaram-se ultrapassar pelos acontecimentos, para muitos, deixaram de servir objetivos e valores comuns e partilhados.  Urge reajustar, reinventar a política e os recursos da política, aceitar a diversidade estabelecendo pontes, abrindo portas em cada muro que se erguer e janelas de entendimento através da arte e da ciência. Nunca as ameaças foram tantas, mas nunca estivemos tão armados para lhes responder. A nossa história, no entanto, é de destruição antes da construção. Como se fosse mais fácil construir sobre as ruínas. O desafio é contrariar, conter, essa tendência por demais conhecida. Talvez fenómenos como o Trump ou o Brexit, sejam suficientes para desencadear a mobilização de esforços que respondam às causas profundas de si próprios? É a questão que temos entre mãos.

Autor: Teresa Albuquerque

Nasceu em Lisboa. Formou-se inicialmente em Comunicação Social na Universidade Nova de Lisboa para depois se dedicar principalmente a projectos e actividades artísticas e culturais. Procurou abordar os seus focos de interesse segundo múltiplas perspectivas e as oportunidades profissionais que foi tendo permitiram-lhe isso mesmo: aprender fazendo e também perspectivando os enquadramentos práticos, teóricos e políticos das relações que se estabelecem em torno das actividades artísticas e culturais. Acredita que se deve operar uma espécie de revolução coperniciana que coloque a cultura no centro da cidadania e da política, como verdadeiro motor de uma (re-)construção europeia.

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