A maldição de Jano

Rooney Pinto[1]jano-obama-trump

Janeiro, o mês do deus romano de duas faces, guardião dos portais, do mundo transitório, nunca calhou tão bem como nesta histórica entrada em 2017 (Obama-Trump). Especialmente no que toca aos contextos internacionais, se é que podemos distanciá-los na categoria de internacionais, pois este é um termo que já deveríamos ter revisto numa associação direta à teoria do caos, mais particularmente ao “efeito borboleta”[2] de Edward Lorenz, explicitado no atual mundo interconectado da política global.

Terminamos um janeiro infernal, cujas notícias trágicas de nossos pesadelos políticos batem-nos à porta e assombram nossos sonhos. As posturas fascistas que há alguns anos fazíamos questão de condenar e o “nosso” fracasso da política e dos políticos, culminaram numa realidade assustadora. Duvidamos da democracia, bandeira sonhada e erguida como baluarte social da humanidade. Vemos nela uma senhora debilitada, carente de auxílio médico e, se demorarmos a agir, poderá apresentar traços de senilidade. Será? O Ocidente amarga o fracasso desta senhora frente às investidas da galanteadora corrupção, contaminando diversos governos e distribuindo um caos social de proporções mundiais. Francis Fukuyama já apontava isso em “Ordem Política e Decadência Política”[3], embora imaginasse cenários mais positivos dos que hoje vivemos, alertava para o perigo deste fenómeno nos Estados Unidos. Assim como Fukuyama, George Friedman alertava para os riscos advindos da decadência desta potência ocidental no xadrez global e o seu impacto global, quando escrevera “A próxima década”[4]. Estamos conscientes de que a política mundial se envolveu numa densa nuvem de fumaça, de forma que não preocupa-nos tanto onde surgirão os focos de incêndio, mas sim se somos capazes de combatê-lo.

Jano abriu as portas de 2017 com a já anunciada, mas ridicularmente ignorada pelas elites intelectuais académicas, vitória de Donald Trump nos Estados Unidos. Fecha o mês romano com uma “quebra de braços” entre o despacho presidencial que bloqueia a entrada de muçulmanos (mesmo com vistos) e a suspensão do mesmo ato presidencial pela juíza federal da Virgínia Ann Donnely[5]. Não cabe aqui desenvolvermos quaisquer discursos de valor, mas assustarmo-nos ainda mais com esta batalha nacional. Este episódio é apenas um dos muitos que ganharam os holofotes mundiais neste terrível janeiro, somando-se à crise com o México, às declarações anti-europeias, a defesa da tortura e o total descaso com as políticas ambientais internacionais. Afinal, temos de facto levado à sério os sinais nacionalistas, xenófobos, extremistas, autoritários, fascistas que surgiram no horizonte? Ou repetimos a história como “Os Sonâmbulos”[6] de Christopher Clark, acerca de como a Europa entrou em guerra em 1914.

Temos que parar de olhar sempre o todo, devemos dar mais atenção aos pormenores, aos pequenos sinais que surgem pelo caminho, porque vivemos o melhor dos tempos e o pior dos tempos. Numa lamentável paráfrase de Charles Dickens[7] no primeiro capítulo de “Um conto de duas cidades”, escrito em 1859, vivemos a idade da sabedoria e da tolice, a estação das trevas e da luz, da primavera da esperança e do inverno do desespero.

Em janeiro, vimos as faces de Jano, a saída de Obama e a entrada de Trump. A maldição de Jano abre-nos as portas para uma realidade que temos ignorado em casa, no trabalho, na Academia: precisamos rever o impacto de nossas decisões ou seremos vítimas de um tornado surgido a partir do bater de asas de uma borboleta.

[1] Doutorando em Estudos Contemporâneos no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – rooneypinto@gmail.com
[2] Lorenz, E.N. (1972). Predictability: does the flap of a butterfly’s wings in Brazil set off a tornado in Texas? 139th Annual Meeting of the American Association for the Advancement of Science (29 Dec 1972), in Essence of Chaos (1995), Appendix 1, 181.
[3] Fukuyama, F. (2014). Ordem Política e Decadência Política: Da Revolução Industrial à Globalização da Democracia. Trad. Miguel Mata. Alfragide: D. Quixote.
[4] Friedman, G. (2012). A próxima década: Onde temos estado… e para onde nos dirigimos. Trad. Patrícia Oliveira. Alfragide: D. Quixote.
[5] Sobre esta notícia na BBC News: http://www.bbc.com/news/world-us-canada-38786660
[6] Clark, C. M. (2014). Os Sonâmbulos: Como a Europa entrou em guerra em 1914. Trad. Miguel Serra Pereira. Lisboa: Relógio d’Água.
[7] Dickens, C. (1982). Um conto de duas cidades. Trad. Maria de Lurdes Medeiros. Mem Martins: Europa-América.

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