E se os europeus acordassem…

Álvaro Vasconcelos women-march

O discurso de posse de Donald Trump foi uma declaração de guerra aos americanos que não pensam como ele e ao mundo. Um exemplo de pura demagogia populista contra a política e os políticos. No dia seguinte, 500 mil mulheres em Washington e outras 500 mil por toda a América demonstraram o que é preciso fazer para travar as políticas mais perigosas de Trump. Como disse Scarlett Johansson é a hora da mobilização cívica nos Estados Unidos, mas também na Europa. Todos temos a obrigação de nos mobilizarmos, de encontrar tempo para agir, apoiar, dialogar, convencer  e analisar.

O meu apelo ao despertar dos europeus, agora republicado no Fórum Demos.

E se os europeus acordassem…

Em 2008, Toni Morrison apoiou Barack Obama porque ele tinha wisdom, sabedoria, uma mistura de bom senso e valores com inteligência, qualidade essencial para o exercício da governação. Trump é o oposto de Obama: fala e age sem sabedoria e assim irá continuar. Seria um erro grave menosprezar a ameaça que representa para a paz mundial.

Trump é a tentativa de travar duas tendências irremediáveis, o fim da supremacia branca na América e o declínio da hegemonia dos Estados Unidos. Juntar uma visão racista com nacionalismo cria uma ideologia altamente perversa — um país cujos nacionais sejam identificados com o “outro” pode ser um inimigo. Trump fez campanha contra os hispânicos e faz ultimatos ao México, os muçulmanos são o inimigo, a China o principal adversário, numa estratégia de confronto que identifica Putin como um aliado. Contrariar a estratégia Trump exige não só recusar liminarmente os seus pressupostos como combatê-la ativamente.
Para a União Europeia, contrariar Trump, que apostou já na sua fratura com o apoio ao Brexit, implica preservar a sua unidade, mas aceitar o seu declínio relativo. Preservar a unidade da União exige uma enorme mobilização cidadã em defesa dos valores da humanidade comum ameaçados por Trump e seus aliados da extrema-direita europeia, nomeadamente em França, mas também na Alemanha.
Aceitar o declínio implica procurar nos países que emergiram, como a China, a Índia e o Brasil, parceiros para um multilateralismo eficaz e inclusivo num mundo pós-ocidental. A mais complexa questão será a relação com a política agressiva de Putin, a quem Trump estende a mão. Uma política de abertura sincera, mas crítica, com a Rússia é fundamental, mesmo não sendo fácil.
Ao mesmo tempo, os Estados da União terão que assumir maiores responsabilidades na construção da paz regional. Para isso, o projeto de uma defesa comum europeia deve ser concretizado a partir da iniciativa franco-alemã, numa perspetiva aberta que inclua a Turquia. Para tal, necessita da capacidade militar e diplomática do Reino Unido, o que deve ser tido em conta na negociação do Brexit, onde a União tem que ser firme na questão migratória, mas generosa em todas as outras questões.
Finalmente, implica o diálogo com as instituições americanas, nomeadamente com o Congresso. Resta um vasto campo para a sociedade civil agir a nível global, nomeadamente com organizações americanas, onde encontrará parceiros que partilham os mesmos valores da liberdade e de luta contra o racismo.
Trump impõe à União Europeia uma tarefa homérica, precisamente no momento em que está fragilizada, mas é a sua sobrevivência que está em causa.

https://www.publico.pt/2017/01/20/mundo/noticia/e-se-os-europeus-acordassem-1758890

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