Soares: Vamos a Isto!

Luísa Schmidt

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Foto: Luís Vasconcelos

Pensando em Mário Soares como todos temos feito nos últimos dias, com saudade para quem o conhecia, não posso deixar de sublinhar dois aspectos que para mim são particularmente significativos. Por um lado, a importância que ele foi dando de forma crescente às questões ambientais tanto nacionais como globais; por outro lado, duas características extraordinárias da sua personalidade: a franqueza e a capacidade de acção para fazer mudar montanhas.

Começando pelas questões ambientais. Foi através das suas Presidências Abertas – uma dedicada aos problemas suburbanos das áreas metropolitanas (1993) e outra aos problemas ambientais do país (1994) –, que conheci Mário Soares. O então Presidente da República planeou estas suas Presidências Abertas reunindo e ouvindo previamente os especialistas dos diferentes sectores e depois, durante estes importantes périplos pelo país, ia ouvindo e debatendo os problemas sempre com cientistas, activistas, responsáveis locais, populações… Mário Soares tinha um verdadeiro sentido da escuta e isso fazia parte da sua natureza cívica. Ele ouvia atentamente, com curiosidade e ânimo. Para mais, Mário Soares aliava a sua enorme intuição ao trabalho sério e profundo como homem de cultura que era. Sobre a problemática do ambiente estava efectivamente informado e o tema entusiasmava-o porque ele compreendia a dimensão política –  no sentido social e humano – das questões ambientais. Fossem locais, nacionais ou globais. Teve um papel particularmente relevante no lançamento do tema dos oceanos, juntamente com Mário Ruivo, por altura da Expo 98. Também interveio progressivamente nos problemas ambientais globais, na sua relação com Mikhail Gorbachev, fundador da Green Cross International. Várias vezes conversámos sobre estes e outros assuntos, juntamente com Viriato Soromenho-Marques e Carlos Pimenta. Mário Soares entendia bem como alguns erros persistentes nas pressas do desenvolvimento determinaram muitos dos problemas ambientais e de ordenamento do território que hoje nos afectam e atrasam. Nos últimos anos eram frequentes os seus artigos sobre as alterações climáticas como tema aglutinador e crucial para os valores que ele tanto defendia: equidade, justiça, defesa do bem comum e sobretudo o futuro.

O segundo aspecto que sublinho nesta curta homenagem que lhe presto, prende-se com algo que sempre me tocou muito na personalidade de Mário Soares e que era a sua franqueza. O que ele pensava efectivamente dizia-o com uma frontalidade tranquila. Manifestava o que lhe ia na alma mas, ao contrário do que se passa hoje nalgumas boçais frontalidades populistas, na alma de Mário Soares ia sempre algo de generoso, cívico, humano, o dever da liberdade, o interesse publico acima dos interesses privados.

Soares era um homem de acção e virado para o futuro. Acreditava na mudança e na capacidade da vontade humana para a provocar. Tal como ele dizia há tempos na Antena 2: “Vi muitas transformações ao longo da vida, e participei de algumas. Por isso acredito que é possível transformar o mundo.”

Mário Soares teve uma vida cheia e a sua vida trouxe dimensão à vida de muita gente. Um dos seus legados principais é essa esperança activa, essa energia que ele transmitia e que gerava energia nos outros para os mais diferentes desafios – desde a justiça social aos problemas ambientais que hoje se colocam a todos nós e que precisam da implicação e da acção de todos nós. Como ele diria: “Vamos a isto”.

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