Soares Europeu

Mário Soares não foi apenas o “rosto” da adesão de Portugal à CEE, nem a sua luta por um Portugal europeu se limita aos tempos que rodearam aquele processo. A ideia de Europa começa a revelar-se muito cedo na acção de Soares por um país democrático, desde os anos da separação do PCP e do exílio, do PREC e da transição democrática, até ao final da sua vida, em que perante o risco da desagregação europeia, com a crise financeira e a troika em Portugal, manteve a defesa consistente de uma “Europa federal de Estados-nação”.

Neste longo percurso de seis décadas, o argumento do Portugal europeu é usado por Mário Soares em momentos-chave, de forma estratégica, consoante a margem de que dispõe no espaço interno de oposição ao regime, primeiro, e, depois da Revolução, na construção de um programa político do PS para as primeiras eleições livres. Aí projecta uma visão de futuro para um Portugal democrático inserido nas Comunidades europeias, fechando o ciclo do “orgulhosamente sós” e iniciando o processo que levará à adesão. Nunca deixou de ter um olhar crítico, socialista, sobre a Europa, dizendo “sou, portanto, um europeísta, mas sou pela Europa dos trabalhadores e não pela Europa dos trusts.” Na vanguarda do pensamento português da época, envolveu-se a fundo no debate sobre o Federalismo europeu dos anos 60 e 70, altura em que, com o Movimento Europeu, defendeu a eleição directa para o Parlamento Europeu. Mas foi enquanto Presidente da República e, sobretudo, nos últimos anos do seu mandato, que fez sobressair a questão federalista no seu discurso, transformando-a num elemento estruturante da sua intervenção fora da política activa.

A Europa é, assim, em Soares, simultaneamente instrumento e horizonte. Nos primeiros tempos, o “neutralismo europeu” da social democracia e do PS francês fornece-lhe a alternativa ao PCP na oposição ao Estado Novo e também a via para se demarcar das posições americanas. Até à Revolução, a Europa fornece também a possibilidade de projecção e apoio internacional para o seu movimento de oposição ao regime, que se afirma não apenas como não comunista, mas pela positiva, perfilhando um socialismo democrático identificado com a construção europeia. É o início da estratégia de europeização do PS, com a “criação” de um líder europeísta que convivia com as grandes figuras da social-democracia europeia e de todo um trabalho de credibilização que viria a ser crítico nos tempos conturbados do PREC, pois seriam precisamente aquelas figuras e instâncias europeias que dariam a Soares uma importante base de apoio e protecção. Depois, será o tempo da Europa como horizonte e desígnio do Portugal democrático, com Soares a aderir ao modelo de desenvolvimento económico da CEE e ao seu quadro de valores. Uma adesão aliás partilhada pelo PPD e apoiada pelo Parlamento, mas para cuja condução Soares era o mais bem colocado, não só por todo o trabalho diplomático anterior, mas também porque integrava a Internacional Socialista, enquanto que Sá Carneiro não dispunha duma família política na Europa.

Para os que, como eu, nasceram depois de 74, com o privilégio da democracia e da liberdade, julgo que o grande legado de Soares é precisamente o Portugal europeu. Este é o único Portugal que conheço, mas é também aquele que prefiro. Soares é um dos grandes autores deste país que hoje somos. A opção estrutural de Soares pela europeização do país transformou para melhor a sociedade portuguesa, lançou o desenvolvimento económico, pôs fim a velhos dilemas, promoveu o pluralismo e uma nova consciência sobre a política e a cidadania, que nos tornou mais exigentes. Pois, como ele dizia muitas vezes, a Europa só é política porque é dos cidadãos. E num mundo em que a democracia não é ainda um dado adquirido, a tarefa de construir uma cidadania crítica, como indivíduos, como país e como comunidade europeia com valores, continua hoje a ser um dos grandes desafios do Portugal europeu e da herança que Soares nos deixou.

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