Mário Soares – patriota e cosmopolita

Sofia Oliveira

Neste tempo estranho em que vivemos, de extremismos, de nacionalismos, de protecionimos, gostava de partilhar a ideia de que sempre vi em Mário Soares, simultaneamente, um patriota e um cosmopolita.
Numa tira do Calvin&Hobbes, de Bill Waterson, o Calvin diz ao pai o seguinte:
-Eu decidi que quero ser milionário quando crescer.
-Bem, vais ter de trabalhar duramente para o conseguir.
-Eu não! Tu.
-Eu?
-Eu só quero herdar o dinheiro.
Em relação a Mário Soares – e a todos os que tornaram possível o 25 de abril e a democracia – é assim que me sinto.


Mário Soares é uma das pessoas de quem recebi como herança essa fortuna: o facto de ter nascido e vivido sempre em liberdade.
Mas de Mário Soares recebi muito mais: a minha mais antiga memória política encontra-se nos debates das eleições presidenciais de 1986. A minha adolescência e juventude correspondem aos dois mandatos presidenciais de Mário Soares. Cresci a ver Mário Soares fazer política – com gosto, com garra, com alegria, com coragem, às vezes, com fúria.
No último ano da minha licenciatura em Coimbra, assisti, como voluntária, ao I Grande Seminário de Relações Internacionais, que Mário Soares orientou, na Faculdade de Economia, pouco depois de ter deixado a Presidência.
Mais recentemente, cruzámo-nos na Universidade do Minho, em 2007, numa sessão inaugural do Mestrado em Direitos Humanos de que fui moderadora. Aí fui prevenida (não sei já se pelo próprio ou por outra pessoa amiga) que não o deveria apresentar como ex-Presidente, porque, numa República, os cargos públicos não são vitalícios, são temporários, não ficam colados para sempre a quem os exerce. Ainda hoje conto, às vezes, esta história aos meus alunos de Direito Constitucional para que entendam bem – e assimilem – o artigo 118º da Constituição, que reflete o princípio republicano: „Ninguém pode exercer a título vitalício qualquer cargo político de âmbito nacional, regional ou local.“.
Neste tempo estranho em que vivemos, de extremismos, de nacionalismos, de protecionimos, gostava de lembrar que sempre vi em Mário Soares simultaneamente um patriota e um cosmopolita.
Sentia-se que gostava de Portugal, que amava Portugal.
Sempre foi um cosmopolita, cidadão atento ao mundo.
Mesmo falando poucas línguas estrangeiras– e com má pronúncia –, isso nunca o impediu de se relacionar, de um modo intenso e descomplexado, com outros líderes europeus e mundiais.
Ser patriota e cosmopolita não encerra em si nenhuma contradição. Quem assume responsabilidades na condução política de um Estado, tem de representar e defender os interesses desse povo, mas não pode deixar também de se preocupar com as legítimas aspirações de outros povos e de assumir responsabilidades – dialogando, cooperando, definindo metas, assumindo compromissos – relativamente a toda a humanidade, para que a dignidade humana seja respeitada em todos os lugares.
Em Mário Soares, ser patriota e cosmopolita era um modo de estar natural, espontâneo. Gostava de que os políticos, independentemente de serem de direita ou de esquerda, também fossem assim.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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