O impasse brasileiro e mundial

 Renato Janine Ribeiro

O Brasil vive um momento peculiar mas, ao mesmo tempo, parecido com os dramas do Brexit e da vitória pós-verdadeira de Trump. Quando parecia a democracia estar consolidada, com 30 anos de regime democrático, sem mais a sombra dos quartéis, tivemos um impeachment que significou a substituição de um programa político, econômico e social de governo pelo seu exato oposto, sem passar por eleições. Dizem uns que foi respeitada a letra da lei; mas não foi respeitado o espírito da democracia.

Isso é ainda mais grave porque põe termo a um período de vinte e poucos anos de inclusão social. Num país com o número de pobres e miseráveis que tem o Brasil, a inclusão iniciada com Itamar Franco, continuada com Fernando Henrique e elevada a política prioritária de Estado com Lula e Dilma Rousseff ainda precisaria de tempo, empenho e dinheiro para se completar. Esse trajeto foi cortado e, em parte pelo menos, está sendo revertido.

Mas, feito o desconto de ser o Brasil um país com grande população pobre e com uma democracia em crise, a situação brasileira não é muito diferente do que vimos com o Brexit e com Trump. O mundo passou por duas ou três décadas de avanço democrático constante, com a queda de dezenas de ditaduras, o aumento das liberdades políticas e pessoais. (A ditadura brasileira foi uma das que caiu, onze anos após a portuguesa.) Liberdades pessoais, como as das mulheres, dos homossexuais e dos discriminados eticamente, cresceram por toda a parte.
O problema é que, de um ou dois anos para cá, vemos uma forte revanche contra essa liberdade política e pessoal, que parecia ser a promessa do século XXI. São, além dos retrocessos propriamente políticos, a xenofobia no Atlântico Norte, o recuo da inclusão social na América do Sul. A questão que fica é: teremos chegado ao fim de um processo de libertação que começa com as Revoluçoes do século XVIII, cresce com a derrota dos fascismos em 1945 e se amplia extraordinariamente desde a deácada de 1980? Estarao os povos satisfeitos, saciados ou mesmo cansados de sua liberdade política, e dispostos a acatar um recuo nas liberdades políticas e pessoais? Ou estaremos vendo o estertor de um mundo arcaico, reacionário que, tal é seu medo da liberdade, tal o seu ódio à democracia, se arma de todas as forças para reverter essa marcha que parecia segura? E, se tivermos sorte e for mesmo essa agonia passageira, esse canto do cisne (ou se quiserem do urubu…), o que deveremos fazer para retomar a tarefa democrática e completar, pelo menos, suas etapas mais prementes?

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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